Este post tem pai e mãe. Um dos responsáveis pelo rebento que vos apresento são os leitores deste blog abandonado que cobraram atualizações. Por coincidência, várias pessoas me perguntaram ontem quando eu voltaria a escrever. Pessoas que eu nem sabia que liam e outras que eu nem pensei que se importavam em ler o que eu escrevo. Vocês que pediram, então toma. O filho é todo seu.
O outro culpado deste momento de epifania (porque eu só funciono assim, na base do insight) foi o vídeo das garotinhas que apresentaram uma coreografia de “Single Ladies” em uma competição de dança. A princípio, eu assisti ao vídeo e fiquei positivamente impressionada com a habilidade e a flexibilidade das meninas. Atletas de diversas modalidades treinam muito pra alcançar aquela abertura de pernas que elas demonstraram tão cutemente. Então outros comentários vieram a seguir, chamando a atenção pra forma vulgar como elas se vestem e dançam. Vale a pena postar aqui em vez de apenas formatar um link que dá preguiça de clicar.
Procurei rever o vídeo outras vezes e reparar nos passos com mais atenção e devo dizer: não vi nada que merecesse tanto espanto. A coreografia tem apenas algumas reboladinhas e a roupa... Sinceramente, implicaram com a roupa? Até parece que ninguém – adultos, crianças, homens e mulheres - vai à praia de trajes minúsculos. A roupa era apenas parte do espetáculo, um figurino próprio naquele contexto. Elas não vão à escola vestidas assim!
Não sei se estão lembrados, mas diversas bandas de axé com loiras e morenas de fartura glútea já infestaram as rádios brasileiras. Havia um grupo em especial que fazia questão de mostrar seu “tcham” no maior número de emissoras que pudesse, sempre repetindo músicas que exaltavam as curvas femininas (e mais um pouco). Aqui vai uma confissão que torno pública: eu dancei muitas vezes essas músicas. Dançava porque era legal, eu me reunia com outras amigas e, juntas, trocávamos informações sobre passos. Enquanto eu dançava, nem me passava pela cabeça a conotação sexual que as letras continham, eram apenas passos de dança e diversão garantida durante dias. Não virei uma criança traumatizada e nem pervertida. Um dia eu cresci, a graça disso acabou, ganhei um pouco de poder de discernimento e percebi que não me acrescentava nada e fim. Sem dramas.
O fato é que o mesmo sentimento que gera em quem assiste à performance das meninas certa repulsa também é responsável por uma mania irritante e muito disseminada ultimamente: o politicamente correto. Como cansa viver num mundo em que nada pode e tudo é censurado pelos próprios cidadãos. Um belo exemplo disso aconteceu comigo, numa esperança vã de fazer uma piada e querer que ela fosse compreendida simplesmente como uma piada. O caso é que havia uma discussão no Orkut e eu, achando aquilo perda de tempo, parafraseei uma citação que havia lido algum tempo antes em outro lugar. Atenção, idosos, gestantes, cardíacos e menores de idade, aqui vai:
“Discutir na internet é como competir nas paraolimpíadas: você pode até ganhar, mas continua sendo retardado.”
Feito. Esqueceram a discussão e os defensores das minorias caíram pra cima de mim. Ah, eu ainda coloquei uma observação embaixo dizendo que, claro, eu não sou idiota, eu sei que as paraolimpíadas são para pessoas com deficiências físicas. Ops, “deficiência” não, “necessidades especiais” (que, no fundo, significa que você tem, sim, um defeito). Não teve jeito, eu tive que ficar explicando que não tinha NADA contra portadores de necessidades especiais, que não pratico bullying contra eles e até tinha um avô que ficou paralítico antes mesmo de eu nascer e que, portanto, conhecia muito mais a realidade de alguém que vive dependente de uma cadeira de rodas do que as criaturas sensíveis que me criticaram pela piada.
Já perceberam que nada mais pode ser dito sem antes passar por uma peneira mental? É necessário fazer o reconhecimento do terreno, ponderar os riscos, analisar os termos empregados, tomar cuidado com as brechas de uma interpretação ruim, etc. etc. É exaustivo todo esse exercício. Nunca se praticou de maneira tão difundida a extrapolação, que consiste na interpretação do que não foi dito. Uma palavra fora do lugar e você é enquadrado em dezenas de parágrafos do código penal.
Poderiam ser citados aqui vários exemplos de como, um dia, já foi possível fazer humor muito mais divertido e sem tanta gente neurótica procurando motivo pra taxar qualquer tentativa de fazer graça como preconceito. Um brasileiro chamado Renato Aragão tinha, em horário completamente acessível às crianças, um programa em que ele e seus companheiros de cena riam de negros, homossexuais, mulheres, autoridades e todos os tipos de estereótipos. Hoje se encontra à margem da programação dominical repetindo à exaustão piadas “do bem” que não ofendem ninguém. E, se ainda estiverem dispostos a ter mais uma amostra sobre a que ponto chega o politicamente correto, sugiro que leiam “Isso que chamo de idéia de retardado”, do blog do Cardoso.
A sexualização de crianças que sequer chegaram à puberdade está na cabeça dos doentes que enxergam perversão em um corpo infantil, não na delas. Elas ainda são meninas, dançam porque é divertido e saudável, porque a música da Beyoncé é moda e é isso que elas ouvem e veem. Além disso, um dia alguém disse que falta de senso de humor não é não rir de uma piada, e sim se sentir ofendido com ela. Concordo plenamente.
Obs: Se você acha que, com este texto, eu fiz apologia à prática de danças sensuais por crianças, parabéns. Você é um extrapolador e isso tudo que eu disse serve pra você.



12 comentários:
Cirque du Soleil é um abuso ao bom senso!!!!!!!!!!!!!!!!!
*Palmas*
Pelamor, não há humor que aguente ser politicamente correto o tempo todo. Nem humor, nem conversas, nem comportamentos... Ah, não dá!
"Se não fossem as diferenças, que graça teria o mundo? Se não podemos vê-las, o mundo perdeu a graça". Nem sei quem falou, se alguém falou, escreveu ou eu pensei... Mas acho que, né?
Você só pecou ao citar o asno do Cardoso. Fora isso, concordo.
Teu blog é ótimo. Tente não abandoná-lo.
http://danilogentili.zip.net/
Como sempre me surpreende, concordo com tudo o que escreveu, e tenho apenas uma coisa pra dizer AS MENININHAS *O*
Super Érika,não esperava menos de você,e tens toda razão,isso de politicamente correto é uma tremenda hipocrisia (:
Nossa... HUAHUEHAUH tô chocado com a informação que você dançava Tchan, Érika. :O Parei por 3 minutos para refletir e imaginar o que li, hahaha!!!
Mas então, mostrou bem sua opinião, mas ó, não acho que se aplique a todas as pessoas. Há pessoas que fogem do politicamente correto e ninguém se importa. Depende muito de "quem" está fugindo do politicamente correto. Veja você, é uma pessoa que eu não imaginava que dançava Tchan na infância hahaha! Muita gente (pelo menos se tratando das pessoas que eu conheço e que você também conhece) vê em você alguém politicamente correta. Eu imagino o Ti ou o Matu falando a mesma coisa (sobre os deficientes) e acho que não traria espanto das pessoas que estivessem lendo.
Não sei se fui compreendido, mas... Adorei o post. É realmente um abuso você demorar pra atualizar teu blog. u_u
Eu tanto concordo, quanto consigo me ver em seu texto. Já tentei por deveras quebrar as regras e mostrar que não sou o "santo" que todos vêem e acreditam, mas infelizmente esta minha "ambição", este desejo desenfreado de tirar a máscara do “bom samaritano” sempre tende a calhar e o melhor é voltar atrás, recolher-se ao nosso mundinho e não esperar nunca que olhem para nós como os depravados, desleixados e irresponsáveis, pois caricaturamos, não sei de que forma esta imagem que tanto nos persegue. Talvez a nossa estirpe, seja ela genética ou hereditária tenha uma parcela de contribuição, não quero eximir-se das minhas próprias fragilidades enquanto ínfimo ser humano para transferir à corrente familiar, mas ao menos tentar justificar uma “ideologia” errônea que muitos fazem de nós... E se fazem parabéns... Sou bonito, sou feio, sou gordo, sou magro, sou preto, sou branco, amarelo ou vermelho, rico ou pobre, respeito você, suas opiniões e suas ideologias, vivo à custa do meu próprio suor e não sou obrigado a gostar de você, nem você de mim. Apenas prefiro “metamorfosear”, a ter uma “única” e “verdadeira” visão do mundo. Não quero esta vidinha pra mim. “Que se foda o politicamente correto”. Parabéns pelo texto.
O Politicamente correto ainda vai transformar o mundo em um lugar como aquele do filme O Demolidor, com o Stallone. O problema vai ser quando começarmos a ser multados em créditos pelo instituto da moralidade verbal, e abolirem o papel higienico pelas três malditas conchas.
Érika! Quanto tempo!!!!! Adorei seu blog, e esse post está perfeito! Lembrei de uma coisa de vi no twitter: http://www.youtube.com/watch?v=KSmR41_tbq0
Tem um pouco a ver com o policamente correto e o humor...
Beijos!
Ju
Ju! Minha nossa, coloca TEMPO nisso!
Saudades de você!
caramba, seu post ficou muito completo o_o
Acho que foi um dos melhores que já li!
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