
Estou vivendo um espasmo criativo, uma vontade de sair escrevendo texto após texto, sobre vários assuntos. Quem vê a quantidade de blogs que eu crio e a quantidade de textos que exponho para o julgamento público deve pensar que eu confio 100% em mim na missão sagrada de escrever. Engana-se. Pois é na única coisa que me vejo fazendo para o resto da vida que residem meus maiores medos e inseguranças.
Acho que nunca fiquei um período muito grande sem escrever nada. Fico pasma de ver gente que reclama de ter que fazer redação, dizendo que não suporta ser obrigado a escrever 15 míseras linhas. Aliás, outro problema meu é a falta de poder de síntese. Escrever aquelas “dissertações” de 10 linhas no vestibular é um suplício. Eu me sentiria tão imensamente melhor em poder tecer conjecturas, elaborar hipóteses, apresentar fatos contundentes, convencer o leitor na lábia. Mas só nos deixam aquelas parcas linhas para dizer algo que caberia em folhas e folhas digitadas em fonte 10.
Para mim, escrever sempre foi natural, diversão até. A história mais antiga sobre isso é repetida à exaustão pela minha mãe. Conta ela, orgulhosa, que ainda na 1ª série minha professora convidou-a a ler uma redação escrita pela sua filhinha com seus 6 anos de idade. A redação estava exposta no mural da escola e a professora fez entonação de que a garotinha levava jeito para a coisa. Mamãe, relapsa, nem lembra se foi ou não ler uma das minhas primeiras criações literárias. Acho que ela não deu importância para a historinha criada por uma criança recém-alfabetizada. Anos depois, criar narrativas era um de meus passatempos para qualquer momento livre. Na 5ª série, escrevi um texto de quatro folhas (frente e verso!) quando a professora pediu uma redação. Lá pela 8ª, ao ouvir que meu texto possuía humildes seis páginas, o carrasco que deveria estar me incentivando a prosseguir com as letras apenas esboçou uma cara de “pffff, nem precisa ler isso tudo”. Assim a vida prosseguiu, sem grandes alardes, eu achando que aquele meu hobby era naturalmente compartilhado pela maioria dos meus colegas.
Daí que o final vocês conhecem: entrei para a faculdade de Letras, apesar de todo o desprezo social pelo curso. Apesar de ter obtido o diploma em licenciatura sem a intenção de dar aula, não me arrependo de ter escolhido Letras. Mesmo que o último ano não tenha entrado nas minhas recordações como o momento mais feliz da minha vida, sei que aprendi muito lá dentro. No mínimo, adquiri poder de argumentação sobre as coisas que mais amo: redação, literatura e linguística. Em nenhum outro lugar eu poderia ter aprendido tanto sobre teatrólogos, poetas, romancistas, linguistas, gramáticos, filósofos e toda sorte de gente chata que gosta de analisar nossa língua portuguesa em cada pequena instância.
Então chegamos ao problema: eu estudei tanto, aprendi tanto, li tanto, sofri tanto, escrevi tanto, que meu olhar crítico sobre o universo das letras acabou sufocando a redatora dentro de mim mesma. O que eu sei perto de tantos cânones? Quem sou eu, uma menininha ignorante e com tanta coisa ainda para viver, perto desses gênios? Não que eu ache que qualquer pessoa que escreve seja gênio (oi, Stephenie Meyer), mas, sabendo que todos eles existem, é inevitável que eu me sinta diminuída diante de um mundo tão repleto de feitos incríveis. Fica muito difícil conseguir me contentar com um textinho singelo escrito por mim uma vez que eu tenho conhecimento da grandiosidade dos meus ídolos e de seu trabalho.
Sei que nem só de clássicos se faz a literatura, mas então outras dúvidas tiram meu chão e alimentam minhas inseguranças e insatisfações pessoais. JK Rowling não fez nenhum romance em que prevalece a sutileza da natureza humana, mas foi capaz de mudar vidas. Não sei se sou capaz disso, então fico triste, porque eu queria um dia olhar para trás e saber que eu mudei a vida de uma pessoa sequer com o que eu escrevo. Literatura também é isso, mudar pessoas, ampliar horizontes, ficar marcada por uma lembrança de arrancar lágrimas.
Para concluir o nocaute, lá do outro lado da moeda vejo Seu Machado, este gênio cínico, realisticamente pessimista, que soube observar o ser humano como poucos romancistas no mundo conseguiram. Não sei penetrar tão profundamente na hipocrisia que permeia o coletivo, não sou grandiosa a ponto de escancarar para o mundo as falácias do homem. Concluo, então, que não sou nada.
Sequer sei se minha redação é satisfatoriamente bem construída. Muitos dizem que sim e até me considerariam tola ao duvidar de mim, mas eu não confio sequer na minha sombra para acreditar facilmente em palavras de gente que eu sei que me quer bem. Não me permito deslumbrar com elogios de amigos. Mantenho meus pés firmes no chão, consciente de que não sei nada, sofrendo com a possibilidade de só ter pleno entendimento da vida quando já for tarde demais e eu já não tiver forças para passar as horas a digitar (se é que até lá não terão inventado mais um equivalente das canetas hidrográficas e do papel). Escrevo porque isso é parte de mim desde os primórdios da minha existência, mas sofro com o medo de que só isso não seja suficiente, de que eu nunca tenha o necessário para deixar com os olhos marejados pelas lembranças aqueles que dedicam seu precioso tempo para ler estas linhas. Some-se isso tudo ao fato de que em algum tempo voltarei a ler o que agora escrevo e sentir a imaturidade exalando das minhas palavras e têm à sua frente esta escritora insegura, com idéias trêmulas, que espera estar fazendo aquilo para o qual foi feita.
Editado: se, mesmo depois dessa confissão, você insiste em ler textos meus, não deixe de visitar o novíssimo em folha Harry Potter for dummies :)



16 comentários:
Uau.
Nos seus textos acabo conhecendo você muito mais do que sou capaz em diálogos. Bom, acredito que devemos superar aquilo que nos incomoda. Se na posição em que está, você se sente um nada, precisa mudar isso. E você é capaz. Derrotado não é aquele que não conseguiu, e sim aquele que já desistiu de tentar. Mas eu acho que você é muito mais do que pensa que é. A maior parte das pessoas que eu conheço que te admira (E olha, são muitas, hein!) ao que me parece, te admiram pela sua incrível capacidade de escrita e pelo seu grande coração. A escrita foi a primeira coisa que me chamou atenção quando li algo vindo de você. Seu último parágrafo me impede de tecer qualquer elogio a esse texto, mas termino dizendo que te invejo (Veja só, provavelmente esqueci de concluir algum raciocínio nesse simples e pequeno comentário!) e repito: Você é muito mais do que pensa que é( Rei leão feelings).
Só posso dizer com tudo isso que sofro do mesmo mal (já conversamos várias vezes sobre isso).
É triste. Até porque não são todos os elogios que realmente me fazem me sentir bem. Aliás, dependendo de quem seja, eu prefiro uma crítica a um elogio, porque, né...
Eu já prefiro um elogio seguido de uma crítica. Sou assim, necessitadinho.
Não sei bem o que falar, porque acredito que essa deve ser uma preocupação que atormenta aqueles que realmente são comprometidos com a escrita. Acho até que seja positivo, porque te faz ficar sempre atento ao que você está escrevendo.
Engraçado que, lendo os primeiros parágrafos, consegui me identificar bastante. Mas você foi atrás das Letras, e eu estou aqui nesse maravilhoso mundo do Jornalismo -n
bom, eu tô nesse dilema, atualmente.
dentro de mim (ainda mais depois de ter lido os excelentes livros de Crônicas de Gelo e Fogo) explodem mil histórias, personagens, tramas, fatos que venho carregando desde o começo da minha pré-adolescência. eles brigam por ganhar vida, ganhar páginas, ganhar história.
mas você me conhece, né, Érika. sabe que eu não me contento simplesmente em escrever: gosto de escrever e APARECER.
e um ponto do seu texto me chamou a atenção e com o qual eu me identifiquei muito muito muito: será que eu vou ser capaz de escrever e mudar vidas? influenciar as pessoas? causar deslumbramento?
ou se simplesmente eu serei a pessoa que escreve bem, e fim de história? não quero isso pra mim...
Você muda minha vida a cada linha que escreve. A cada interjeição. A cada emot. q
Juro. E eu sei que não só a minha.
Quando escreve posts assim, então. É puro amor.
Escreve logo tudo o que ta aí entalado e deixa a gente te amar mais e mais.
bêajs
Também acho que seja um dilema que afeta os que se dispõem a ganhar a vida escrevendo e que têm, entre seus ídolos, escritores... Mas, para ti, que já transpareceu o perfeccionismo na internet, deve ser ainda mais difícil dar-se por satisfeita e clicar no 'publicar'...
Além de reconhecer a própria limitação frente aos gênios, pode ajudar se tu te comparar aos teus semelhantes, o que, por sinal, é muito mais justo. ^^
Concordo com o Ti e o Daniel. Bem mais justo te comparar aos meros mortais, não te diminuindo, claro.
E imagina o tanto de gente que vem ler um texto como esse e se sente motivado a ler mais, escrever mais, enfim, melhorar a escrita? E os que vão ao Harry For Dummies depois de uma semana cansativa e dão risada, lembram as próprias memórias (oi) que têm em relação à saga, ficam felizes, ao menos por cinco minutinhos? Se isso não é mudar a vida dos outros, PORRÂ.
Afonso foi mais esperto que eu na escolha do curso. Humanas já não tem AQUELE reconhecimento da sociedade e eu ainda sento em cima fazendo Letras. Tsc.
Também rolou uma certa identificação por aqui. Lembrei da segunda série, época das narrativas "escolha uma imagem e escreva uma história", quando todo mundo gostava de escrever. Hoje é sinônimo de chatice (uma vez uma colega escreveu uma observação após a redação, criticando e dizendo que não tinha gostado do tema!).
Limite de linhas é frustrante, mesmo. Principalmente se for aquele tema que chama a sua atenção e que dá mais vontade de fazer um artigo de opinião enorme ao invés de uma dissertação de 25 linhas. Ou quando seu ponto de vista é diferente do do professor (há alguns meses tivemos de fazer uma redação sobre amizades online e ele insistiu que não é possível ter contato emocional com alguém que você só conhece pela internet).
E se por um lado eu tenho uma noção muito menor da grandiosidade da literatura pela minha limitada bagagem literária, por outro eu tenho muito menos estudo sobre a língua, e a cada coisa simples que me boto a escrever vão surgindo dúvidas que sinto que não deveria ter e que me dão a sensação de que nunca vou dominar satisfatoriamente essa tal língua portuguesa.
E nem preciso dizer que o texto está ótimo.
Eu não sei o que falar para você, Érika. Eu sei que tentamos ser modestos e tals, mas você beira a auto-ignorância.
Para mim, quando a pessoa se aprofunda no assunto, além de a gama de conhecimento aumentar, a hipercorreção também fica marcada. O seu caso seria o de uma pré-hipercorreção. Por saber muito sobre literatura, gramática e todos esses assuntos lindos do Brasil, você acaba duvidando da sua capacidade de cumprir todos os requisitos.
Apesar de ser eu amar um texto ricamente escrito como Vidas Secas do Graciliano, acho que uma narrativa mais emocional é igualmente impactante. Eu penso que é necessário saber construir para destruir. Não é porque se domina os padrões, que não se possa fazer algo exótico.
Os textos que conseguem sobreviver ao seu crivo são perfeitos tecnicamente. O que eu me pergunto é se essa é a verdadeira Érika. Acho que tem um eu-lírico sufocado pela hipercorreção. Por isso eu percebo certa diferença entre as conversas casuais e os textos publicados aqui ou nos outros blogs. Por isso eu encho o saco no MSN; porque você já me provou a sua inegável qualidade de profunda conhecedora da língua e suas minúcias. Agora eu quero conhecer - ainda mais - a Érika que sente tudo isso.
Abraços de um intrometido.
Fico feliz pelas vezes que abro a primeira página do seu blog... Sua escrita nos prende... Você tem um jeito bem peculiar de conquistar o leitor, embora você teime em dizer o contrário.
O interessante é que você continua fazendo da escrita esse esporte que não cansa... Viajando pelo mundo das letras e mostrando que é capaz.
Sou um admirador dos seus textos. Admiro o seu talento e procuro fazer deles um reflexo.
Parabéns!
Olha, quero te dizer que você tem talento pra fazer o que pretende, só isso. :)
nossa, só li esse post hoje. meu deus, menina, se você soubesse o talento que tem...
sem querer puxar o saco porque te acho mó pnc, zoera hehe, mas sério. eu às vezes falo de você pra minha irmã e acho que ela já leu alguns dos seus textos, a garota adorou.
a verdade é que quando eu leio o que você escreve me identifico pra cacete. eu sempre acho que você poderia dar continuidade em todos os seus textos. tipo, que poderia dar uma ótima história, um livro. uma vez eu li um texto que você escreveu sobre ~a amizade~ e imaginei que poderia sair uma puta história de lá. ALOK TENHO PROBLEMAS? -TALVEZ
mas olha, você já conquistou bastante gente com o que escreveu. se insistir mais, começar a publicar mais coisas etc, aposto que conquista mais ainda, hen.
se algum dia você começar a escrever um livro, me manda, certeza que vou ler.
Adorei o texto. Apesar de ser formada em História, passei pelas mesmas situações. Dificuldade em diminuir o número de linhas, escrever somente na 3ª pessoa para a prova, escrever sobre um assunto que não deseja ou desconhece, e não se empolgar na hora de escrever o que quer. Missões quase impossíveis.E aquela sensação de se sentir mais burra a cada texto novo que leio.Continue escrevendo e não se deixe abater pelo medo.
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