All you need is um pouco de cultura e vergonha na cara




Se você, assim como eu, achava que a turma do "imagina na Copa" já tinha incomodado o suficiente com a escolha do Rio de Janeiro como sede dos próximos jogos olímpicos, dê cá um abraço. Pois é, amigos, a ladainha ganhou um novo episódio com o encerramento da Olimpíada de Londres e continuou hoje com a divulgação da música-tema de 2016

Posso viver mil anos, mas nunca vou conseguir entender que tipo de coisa se passa na cabeça de quem abre a boca para dar sua opinião cretina sobre o que não sabe, muitas vezes apoiando-se somente em lugar-comum. Assim que o Rio foi declarado campeão na disputa com Madrid, o que não faltou foi gente para dizer que o dinheiro gasto seria melhor utilizado em saúde e segurança, que isso seria desculpa para desvio de dinheiro e todos os outros clichês que essa turminha do barulho gosta de repetir. A constatação é a de que esse tipo de opinião unilateral e pouco embasada vem de gente que não se interessa nem minimamente por política e só gosta mesmo de posar como cientista social. Não estou negando que existam coisas muito podres no meio de tanta alegria, apenas que este tipo de discurso está sempre pronto para qualquer circunstância. Mas essas pessoas ignoram outros pontos de vista. Ser uma potência mundial passa por fazer parte de grandes eventos, sejam eles reuniões sobre economia e desenvolvimento sustentável ou festividades como copas e olimpíadas. Isso traz visibilidade, força investimentos e melhorias para o país e coloca o Brasil no centro das atenções mundiais. Isso tudo tem consequências boas também. 

Então mais um absurdo: o próprio brasileiro, que presencia de camarote o país realizar um evento como o Carnaval, que tem uma duração de (pelo menos) quatro dias com muita alegria, samba, micareta, abadá, putaria purpurina, lantejoula e alegorias, duvida de sua capacidade de fazer o que sabe melhor: festa. A gente escuta samba-enredo desde que nasce, mas uma festinha de 3 horas o Brasil não saberá realizar? É inacreditável. Pois eu apostaria que a mesa do COB já está abarrotada de currículos de carnavalescos, coreógrafos, bailarinos e costureiras querendo ter seu nome relacionado à produção das festividades que abrem e encerram o evento. Não se preocupem, pois disso a gente entende bem. 

Só que esse ceticismo é apenas o início dos problemas. Lendo os comentários de reação à bela festa realizada no encerramento dos jogos e ao vídeo Os grandes deuses do Olimpo visitam o Rio de Janeiro, entende-se que existe enraizado no brasileiro um preconceito em relação a si mesmo e suas origens. E isso não é sequer novidade. Já tivemos demonstrações recentes e claras disso quando, em consequência da eleição de Dilma Rousseff, muitas pessoas declararam seu ódio aos nordestinos, que, segundo os coitados que assim diziam, seriam os responsáveis por esta tragédia. Portanto, não chega a ser chocante que gente sem respeito por cidadãos da mesma nacionalidade que a sua não o tenha também pela cultura brasileira. 

Enquanto os artistas britânicos se apresentavam no Estádio Olímpico de Londres, jovens em sua ânsia de vomitar bobagens insistiam em fazer comparações de âmbito cultural entre as duas nações. "Enquanto os ingleses mostram Beatles, a gente tem Cláudia Leitte", "aqui, em vez de Spice Girls, vai ser Rouge", "eles têm Queen, nós temos Restart" (esta última é invenção minha, mas não duvido que tenha existido). Mas melhor que tudo isso foi notar o desespero dos brasileiros diante das maravilhas britânicas e o horror de não possuir as mesmas referências que desfilaram no estádio (ignorando completamente que One Direction e Russell Brand têm tanta relevância para mundo quanto muitas porcarias que se consomem aqui no Brasil). 

Pois digo que, para as pessoas que se sentem muito melhor representados pela cultura europeia do que pela brasileira, os 8 minutos destinados à prévia do Rio 2016 foi um tapa na cara. Marisa Monte, Renato Sorriso, Seu Jorge, BNegão e Alessandra Ambrósio mostraram ao mundo que o Brasil é culturalmente rico, tem uma música contagiante e não ficará devendo nada a Londres (sem mencionar a presença de Pelé no finalzinho). Apenas índios, capoeira, samba e futebol não representam o seu Brasil? Então saiba que isso tudo representa a imagem do Brasil para a maior parte do mundo. Não tem como fugir desses clichês. Seria o mesmo que a Inglaterra deixar de fora Beatles, Big Ben, os ônibus vermelhos de dois andares ou a J.K. Rowling. Aposto que para muitos ingleses isso não está diretamente relacionado ao seu cotidiano, mas é nisso que as pessoas de fora pensam primeiro quando se fala do lugar. Você pode curtir Los Hermanos, Móveis Coloniais de Acaju, ouvir folk e viver em São Paulo (onde não tem sequer uma planta, muito menos tribos vivendo em mata intocada), mas não é isso que inglês quer ver. Aceite que eles querem cair no samba, ver mulata rebolando os glúteos, vestir a camisa amarela da seleção de futebol, colocar cocar de índio. 

Embora os comentários feitos durante a festa de encerramento tenham irritado bastante, o melhor do pior estava guardado para hoje. Foi quando aquele autopreconceito já mencionado ficou gritante demais. A divulgação deste vídeo escancarou a ignorância que os jovens brasileiros em geral (ou pelo menos os que se dão ao trabalho de vir à internet fazer comentários estapafúrdios) possuem em relação à própria cultura. Sim, além de menosprezá-la, eles claramente a desconhecem. Muita gente foi a público reclamar da escolha dos artistas que participaram do clipe. Pelo que pude entender durante o pouco tempo que consegui encarar a realidade me esbofeteando as duas faces, a maioria pedia melhores representantes, pois aqueles do vídeo não fazem jus à nação brasileira.

Aposto que essa gente indignada e culta não entendeu, por exemplo, o que Marisa Monte cantou quando passou brevemente pelo palco do Estádio Olímpico naquela biga (para manter as referências olímpicas) de guarda-chuvas azuis. Será que eles sabem que se tratava das Bachianas brasileiras de Villa-Lobos? Ou melhor, será que essa turminha pelo menos sabe quem é e o que fez Heitor Villa-Lobos? Será que aqueles que reclamam da presença do Mr. Catra (por quem nutro simpatia zero) nunca dançaram e cantaram enlouquecidamente hits como My Humps e Don’t Want No Short Dick Man? Será que o povo que reclamou de colocarem um "bêbado" no vídeo já ouviram falar de Dioniso, o deus grego das festividades e do vinho (que foi substituído por cerveja)? Será que o cidadão que disse que o Brasil não tem nada cultural para mostrar (sim, li isso também) tem noção da importância e qualidade de nomes como Adriana Calcanhoto, Lenine, Chico Buarque, Arnaldo Antunes, Tom Zé, Sérgio Mendes, Hermeto Pascoal, Cartola, Noel Rosa, Dorival Caymmi, Martinho da Vila, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Elis Regina? Não me entendam mal, ninguém é obrigado a gostar de nada disso, mas ignorar nossos artistas e dizer que não temos nada para mostrar extrapola qualquer nível de insensatez. 

Sim, tudo isso me deixa Afrodite da vida. Sei que não deveria ser dada muita importância para o julgamento de gente que reclama de cultura brasileira e nunca leu Machado de Assis porque 'não quer ler com um dicionário do lado'. Mas é inevitável. Tenho a sensação de que os jovens estão cada vez mais imbecilizados e de que a liberdade de opinião proporcionada pela internet está criando esses monstrinhos que adoram fingir preocupações que não possuem com a sociedade. Pessoas que acham que o fruto do vizinho é sempre melhor e produtos de língua portuguesa não valem tanto quanto o Crepúsculo da vez. O que preocupa é que esses mesmos jovens deveriam estar aprendendo para poder mudar o que existe de errado. Porque, não, o Brasil não é perfeito, mas a síndrome de vira-lata também não tem utilidade nenhuma e prejudica todos os aspectos sociais do país – escritores não conseguem publicar ou vender seus livros, músicos não conseguem competir com os hits da Billboard, ninguém se sente motivado a ajudar a alterar problemas políticos. É triste testemunhar o brasileiro menosprezar o que o país tem de mais precioso, que é sua pluralidade cultural.

The Vampire Diaries: 10 motivos para ver e amar



Por muito tempo me mantive em silêncio. Mas vocês precisam saber: The Vampire Diaries vale cada minuto assistido!

Honestamente falando, ao contrário de muita gente, não tive tempo de desenvolver nenhum preconceito com a série. Nunca me falaram para assistir, então sequer conhecia ou sabia do que se tratava. O mais perto que eu chegava de uma trama sobre vampiros era através de True Blood, que só vejo porque passa durante as férias da maioria das outras que acompanho. Ainda assim, estou muito perto de abandoná-la, pois não sei se consigo suportar sequer mais meia temporada da Tara destruindo cada cena em que aparece com seus dramas e voz chorosa. Sério, não tem mais Alcide que compense o esforço.

Muita gente imediatamente aciona do dispositivo da repulsa à menor menção da palavra "vampiros". Compreensível. Eu mesma ficaria muito cética em relação a TVD se a série não me tivesse sido muito bem recomendada por alguém de confiança. Há ainda o fator The CW, que em nada ajuda a credibilidade do conjunto da obra. Entre outras coisas, o canal é responsável por títulos nada atrativos como Gossip Girl e Pretty Little Liars. Basicamente, séries horrendas, de enredos bobos, com apelo adolescente-feminino (ô nicho...), estreladas por atores de desempenho duvidoso. (Não é preconceito, mas conhecimento de causa. Acompanhei GG até o início da 3ª temporada e continuo insistindo com PLL Sabe-Deus-Por-Quê. É a próxima a fazer companhia a GG no limbo de séries abandonadas por mim.)

Mas você continua aqui e confia em mim (e acredito que você leve minha opinião minimamente em consideração, afinal está lendo isto). Então quero listar alguns dos motivos por que você deve momentaneamente abrir seu coração a novas experiências, passar pelos primeiros 5 episódios (que são mais fracos, reconheço) e deixar a mente livre dos traumas causados pelo fenômeno Crepúsculo ao redor do globo terrestre. E, já que falamos no livro da tia Meyer, vamos ao primeiro motivo pelo qual você deveria dar uma chance a TVD:


1. The Vampire Diaries NÃO é Crepúsculo. Acha pouco? Pois eu considero suficiente saber que não vou precisar suportar aquele draminha narrado em primeira pessoa pela Bella, ouriçada pelo corpo branco, gélido e glitterizado do Edward. Não sei quanto a vocês, mas, na minha opinião, isso é determinante. Este item, sozinho, já é um pacote de vantagens.

2. Tem enredo além de vampiros e triângulos amorosos. Porque eu acho muito simples criar um romance protagonizado por personagens sobrenaturais só pelo shock value e não dar a essa condição nenhuma utilidade. Concordo que o romance ainda é importantíssimo (afinal, ainda estamos falando de uma série teen da CW), mas não é só disso que se trata. TVD tem uma mitologia muito bem construída, que não subestima o espectador escondendo-se sob o escudo da desculpa 'é apenas entretenimento'. A tramas são bem amarradas, usam o recurso de flashbacks e, para cada coisa revelada, mais perguntas começam a surgir (e isso não inclui "por que eu ainda vejo isso?").

3. A série é melhor que os livros. Sim, TVD é baseado em uma série de livros de autoria de L. J. Smith, que escreve muito mal, diga-se de passagem. Admiro quem leu aquele monte de bobagem e viu naquilo algum potencial. Não é muito superior a Crepúsculo, mas pelo menos foi escrito antes da chata da Bella pensar em existir. Não sei como dona Smith ainda não processou tia Meyer, porque as semelhanças – inclusive qualitativas – são absurdas. A protagonista é um projeto de vadia, o mocinho é tão interessante quando o Edward etc. A série televisiva consegue consertar o que há de ruim e usa basicamente apenas o esqueleto das tramas. Ufa, né?

4. Velocidade de desenvolvimento das tramas. Acho que este é o maior trunfo de TVD. Se surgir algum mistério em determinado momento, pode saber que você não vai precisar assistir a 6 temporadas para desembocar num túnel de luz protegido por uma rolha. Dali 3 ou 4 episódios, no máximo, as coisas farão sentido. Sério, o ritmo é frenético. Não é raro que TVD recompense os fãs com episódios que parecem um season finale. De repente, aquilo que parecia ser o plot mais importante apresentado na série até o momento é substituído pelo próximo, o vilão poderoso não é mais tão poderoso e coisas essenciais revelam-se ferramentas de distração para algo muito maior. Bate sempre aquele desespero do tipo "o que esses produtores vão fazer agora, depois dessa bomba? Acabou a temporada aí, não tem como ser melhor". Mas sempre tem, yey!

5. Morre até quem já morreu. Isso é muito divertido. Se, por um lado, aquele personagem carismático ou com potencial de mudar todos os acontecimentos não sobrevive o suficiente para dizer Dear Diary, por outro, o mesmo acontece com gente muito chata. Nenhuma preocupação é necessária - aguenta mais um pouco aí que logo, logo alguém dá um jeito de acabar com o indivíduo. Vale decapitação, empalamento, arrancar o coração com a mão. Nada de métodos tradicionais como armas de fogo ou facas. Estilo é tudo.

6. Festas! Desde The O.C. eu não acompanho uma série com tantas festas. Para uma cidade pequena como Mystic Falls, a galera tem bastante para comemorar. Mas é tudo justificado: as chances de acontecer merda e alguém morrer são multiplicadas exponencialmente em cada uma dessas festas. Os cidadãos precisam delas, portanto.

7. Kevin Williamson feat. Julie Plec. Já ouviu falar em Dawson’s Creek, Pânico e Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado? Pois bem, tudo isso consta no currículo do senhor Williamson, que produz TVD. Julie Plec, que escreve a série ao lado de Kevin, também trabalhou com ele na série Pânico. E qualquer pessoa que tenha acompanhado as obras do tio Kevin sabe que ele tem um fraco por triângulos amorosos (Joey, Dawson e Pacey não me deixam mentir) e filmes de terror. Então, naturalmente, TVD consegue reunir todos esses elementos, sendo muito suave em alguns momentos e criando atmosferas de suspense regadas a muito sangue em outros. Tem como isso dar errado? Tem, não.

8. Trilha sonora. Conheci Foster The People, Andrew Belle e Ross Copperman graças à trilha de TVD. Só o episódio piloto tem Katy Perry, Placebo, MGMT, OneRepublic, tudo junto. Toda a trilha da série é escolhida com muito carinho, e isso é perceptível pelos comentários dos próprios Kevin e Julie quando ambos falam sobre sua cria (nos extras dos DVDs sempre rola um "I looooove this song"). Assim como o universo em que vivem os personagens de Mystic Falls, as músicas também reproduzem o mundo em que os jovens vivem hoje. O que eles escutam não é muito diferente do que você leva no seu MP3 player. I just came to say hello! Tuntz, tuntz, tuntz ♪

9. Família Original. Não vou me alongar muito nisso, porque, caso você ainda não acompanhe a série, qualquer coisa que eu fale aqui sobre os Originais é spoiler. Mas resumindo: uma família IN.TEI.RA de vampiros com uma quantidade de problemas em que nem Regina Volpato daria jeito. Guarde esses nomes: Klaus, Elijah, Rebekah, Mikael, Esther, Kol e Finn. Vai na minha, assiste isso logo!

10. Poder amar e odiar a mesma atriz. É inevitável, goste você de protagonistas boazinhas ou antagonistas bitches. Nina Dobrev atua como Elena, a mocinha, e Katherine, uma vampira bandida. É incrível como normalmente as pessoas se esquecem de que se trata da mesma atriz quando falam de Elena e Katherine. E o fato das duas serem iguais (afinal, são interpretadas pela mesma atriz, dã) não é nada gratuito. Você vai ver... Já não mandei assistir isso?

Vilões (sugestão dos colaboradores): TVD tem os ótimos vilões, que se alternam para ver quem ferra mais com a vida da pobre Elena, começando por Damon e terminando na família de Originais. Em TVD, o vilão de hoje pode ser a vítima de amanhã, e depois de amanhã o vilão de antes de ontem pode ter que se aliar com o vilão de ontem para derrotar o vilão de hoje, que certamente terá outro para caçá-lo nos próximos dias. Parece poema do Carlos Drummond de Andrade, mas this... is The Vampire Diaries!

BÔNUS
Se ainda não fui capaz de convencer ninguém, olha o elenco:

Espero ter sido clara (já terminou de baixar a primeira temporada?).


Editado 6 anos depois: A série degringolou depois da terceira temporada. Aparentemente os showrunners (Kevin Williamson saiu!) não souberam mais o que fazer com a trama depois que ***** virou vampirx. Ao final da sexta temporada, nem mesmo a protagonista, Nina Dobrev, quis continuar na série. Preferiu ir fazer filme ruim a ter que aguentar os plots ruins e o climão com o ex-namorado, Ian Somerhalder (que virou um mala de verdade). A série acabou melancolicamente com uma audiência péssima na 8ª temporada e nem o elenco quer ter mais nada a ver com a série. Eu poderia reescrever o post com motivos para ODIAR.

Glee: já parei de acreditar



Nunca tive a ilusão de que Glee tivesse uma trama impecável. Aliás, acho que a própria série nunca quis enganar ninguém (a princípio): um roteiro simples, rápido, umas músicas pops aqui e ali, estereótipos de losers habitando os corredores da escola, um grupo de alunos – muitos dos quais, aliás, sem talento algum para a música – tentando superar problemas de popularidade, alistando-se (ou sendo coagidos a) ao coral da McKinley High School. O gênero é claro: comédia musical adolescente. E, se qualquer coisa nessa definição não o agrada, melhor nem ver. Já testemunhei muita gente incomodada com o sucesso de Glee simplesmente porque o conceito não lhe agrada. Poxa, eu não gosto de terror/nojeiras/zumbis, então não vejo The Walking Dead ou American Horror Story. Mas, dentro de sua proposta, Glee já foi boa. Sim, já foi. Triste realidade: não é mais.

Glee tinha um grande potencial. O piloto, que eternizou Don’t Stop Believing como hino da série, mostrava uma série despretensiosa e divertida, um roteiro que tirava sarro de seus próprios personagens e plots. Os personagens eram todos tão caricatos, as situações eram tão absurdas e tudo se encaixava tão bem! Ninguém se importava com o fato de que Sue Sylvester apresentava um comportamento psicopata incompatível a um educador (ou qualquer pessoa que se importe em ir para a cadeia); não havia problema no fato de Finn pensar ter engravidado Quinn só por tomar banho com ela; Kurt afetadíssimo e se identificando mais com as meninas era engraçadíssimo; Rachel mega bitch e egocêntrica era sempre imperdível. A falta de verossimilhança de muitas situações e a inexistente preocupação em impor o politicamente correto eram o que caracterizavam e davam a graça ao espetáculo. Oras, eles são losers, então nada como se referir a Tina e Mike apenas como “asiáticos” ou dar uma zoadinha com um cadeirante. Glee era ousada!

Então Glee começou a se levar a sério. As storylines, que antes eram dinâmicas beirando ao episódico, passaram a se arrastar. Os dramas que tantas vezes serviram e escape cômico viraram... Dramas verdadeiros. O Kurt, que era ótimo, passou uma temporada inteira lamentando sua vida de homossexual, e Ryan Murphy, espertíssimo como ele só, tirou ele do New Directions, criou uma nova escola, apresentou-nos a Blaine e originou o casal mais desprezível das três temporadas de Glee: Blaine e sua out of style gravata borboleta. E ele ainda reclama de levar raspadinha na cara. Acho é pouco.

O ponto é: Glee foi inteiramente descaracterizada junto com seus personagens. Agora a Rachel vive se sentindo culpada por querer o papel principal, coisa que a todo momento é pretexto para que a coitada saia dos holofotes como desculpa de deixar os outros brilharem também. Hoje em dia, se disserem para o Kurt ir cantar com as meninas, é capaz dele ficar ofendisíssimo e sair chorando da sala de ensaios. Aliás, cadê a amizade de Mercedes e Kurt? Falando em Mercedes, já cansou faz tempo dessa história de que ela quer ser o centro das atenções junto com a Rachel. Falando em Merdeces de novo, alguém comprou esse romance dela com o Sam? Eles estudaram coisa de um ano juntos e nenhuma faísca (o que deve ser explicado pelo fato de que ele estava mais interessado pela Quinn, talvez?), agora querem que eu aceite esse drama dos dois juntos. Sério? Sue não sabe se fica ou se vai, se ama ou odeia, se quer destruir o coral ou se quer ajudar o chatíssimo do Schuester a conquistar a Emma. Ou seja, a série conseguiu estragar a melhor personagem que tinha.

Nem as músicas salvam a série. Prova disso é que, antes de eu começar a escrever este texto, fui procurar em um dos últimos CDs algo em que me inspirar. Naveguei por músicas e mais músicas até conseguir encontrar algo que me empolgasse. E, quando o coral coadjuvante faz as melhores performances da temporada, algo está definitivamente errado. Alguém prefere ouvir Kurt e Rachel encenando sucessos da Broadway com que ninguém se importa (e não acho que o público-alvo da série sejam os amantes de musicais consagrados) ou assistir a Santana e Mercedes no delicioso mash-up de Someone Like You e Rumour Has It? Não há o que pensar, certo?

Minha mágoa com Glee é que a série me decepcionou. Apesar de todas as críticas sobre o roteiro e as situações, eu comprei a ideia do Ryan Murphy. Era simplesmente honesta e tinha sua dose de ousadia. Nunca me preocupei com a verossimilhança. Colocasse umas músicas legais que se encaixassem com um mínimo de história que eu me dava por satisfeita, juro. Mas não me peça pra levar a sério uma história que não se decide entre o caráter dos personagens, que esquece tramas e cria divergências dentro de si mesma. Não me peça para levar Glee a sério, porque essa é demais até para mim. Vou é ver Smash, porque pelo menos lá os cenários luxuosíssimos são usados como metáfora da idealização dos artistas, não como recurso de coral escolar que vive chorando miséria até para ir a mais uma de suas trocentas regionals.

Geração 2.0 (mais para zero do que para dois)

Maitê: intelectual que defende a paralização das obras de Belo Monte.



Ainda me lembro como se fosse hoje do dia em que fui sugada para o esporte de discussões virtuais. Falei mal do Paulo Coelho em um fórum. Lancei uma opinião inocente e, ingênua, achei que no máximo alguns gatos pingados leriam. Para minha surpresa, descobri que mais pessoas gostavam do velho mago do que eu imaginava. Voltei lá para provar que eu estava certa e perdi o medo de expor minha opinião na internet. A esta, seguiram-se outras opiniões, outros debates e peguei gosto pela coisa.

Aliás, se existe algo de que eu gosto é provar que eu estou certa. Mas, obviamente, eu não cometo o erro de ir tomar partido em alguma discussão antes de fazer um estudo sobre o caso para fundamentar a minha opinião. Se eu entro em uma briga, é para ganhar. Se eu já vou com esse objetivo, significa que eu já me armei de argumentos que, no mínimo, me impeçam de parecer uma demente aos olhos das pessoas com que estou dialogando. Acerto sempre? Claro que não, mas é necessário que me provem onde estou errando para rever meus conceitos sobre determinado assunto.

Ultimanente, a possibilidade de discussão argumentada diminui em razão relativamente inversa ao acrescimento de comunidades e grupos virtuais. As pessoas parecem estar perdendo o hábito de entrar em um debate para provar seu ponto de vista ou ser convencido pelo outro polo da discussão de que precisa repensar seu posicionamento. Os membros-amebas desses grupos procuram pessoas com que se identificam, que compartilham seus gostos, e não para se aprofundar sobre o que estão falando. Se você clica no join de alguma comunidade/grupo de um cantor, por exemplo, a expectativa criada é a de que você irá lá dar um RT ou um [+1] em todos os elogios que já foram postados sobre o artista. Experimente dizer apenas que, poxa, você gosta do Zé do Cavaquinho, mas o último CD dele não ficou tão bom quanto poderia. Certamente alguém lhe brindará com o amistoso convite ao grupo “Eu odeio o Zé do Cavaquinho”, pois você, herege, é um traidor da causa das zé-cavaquetes e não merece o convívio daquelas pessoas. Você é um rebelde, um troll que apareceu apenas para desestabilizar a paz que reinava entre os fãs do Zé do Cavaquinho.

Tão ruim quanto um posicionamento cegado pelo fanatismo é a ausência total de uma opinião. Aproveitando-se deste vazio, pontos de vista parasitas farão desta mente intocada um hospedeiro de seus ideais. É claro que ninguém sabe de tudo. E muito menos somos obrigados a assumir uma posição em relação a tudo. Eventualmente surgirão assuntos pelos quais não nos interessamos ou sobre o qual nunca nos informamos e não há nada errado nisso.

O problema reside em aceitar a primeira versão dos fatos e não se preocupar em averiguar a veracidade das informações que chegam em cascata. A internet deveria facilitar o acesso à informação, mas, ao invés disso, parece (pelo menos a meu ver) estar criando um grupo de opinantes preguiçosos. Acostumados à velocidade da internet, são pessoas que acham absurdo perder 15 ou 30 minutos lendo um texto simples para adquirir informações confiáveis. Então, como em terra de cego, quem tem um olho é rei, ganha aquele que chega primeiro, independentemente de suas intenções e seus argumentos.

O último exemplo disso é o absurdo vídeo sobre Belo Monte. Seja você contra ou a favor de tal usina, precisa saber que as informações do vídeo são completamente contestáveis e chegam a induzir o espectador ao erro. Um dos mais engraçados é levar o público-cidadão a pensar que investimentos do Estado com o dinheiro dos cofres nacionais são prejudiciais ao povo. Seria com o dinheiro de quem? Dos políticos, do Zé do Cavaquinho, do seu vizinho? Obra de utilidade pública é realizada com dinheiro de impostos que pagamos mesmo, e nem poderia ser diferente. Dinheiro de iniciativa privada é colocado em jogo quando quem lucra é a iniciativa privada, não os cidadãos. Enfim, o vídeo em questão pode ser classificado como um desserviço. Se existiu nele alguma vantagem, foi a de levar alguns a procurarem informações corretas sobre Belo Monte. Infelizmente, estes são minoria.

O ponto de tudo isso é: desconfiem do óbvio. Sei que estamos condicionados ao senso comum, que, se alguém levanta uma causa em prol de uma minoria, a tendência é acatarmos os argumentos que nos chegam. Falou em Amazônia, pensou em desmatamento, em fim do mundo, em oh, meu deus, não deixem ninguém chegar perto do pulmão do mundo!; quando sabemos que uma pobre menininha foi expulsa da faculdade por causa de um vestido, a primeira coisa que se passa na cabeça é malditos machistas medievais que destilaram sua fúria em uma mulher! A vítima está por aí, nas páginas de fofocas sobre sub-sub-sub-sub-celebridades e parece que diploma ela nunca viu, nem conseguiu, nem ouviu falar. Pois é. (Não que o diploma deva ser obrigatoriamente o objetivo de qualquer ser vivente neste planeta, mas, para quem esteve tão preocupada em defender seu livre acesso à faculdade e lutar pelo seu direito de estudar independentemente de sua vestimenta, parece que o máximo que ela tem lido são revistas de fofoca na recepção de salões de beleza e consultórios de cirurgiões plásticos.)

Sou muito cética. Gosto de entender como pensam os dois lados de toda questão em que me enfio. Acho que esse hábito foi adquirido com um professor de redação no ensino médio. Segundo ele, a melhor forma de escrever é prever o que o leitor irá pensar sobre seus posicionamentos e se adiantar a ele, encontrando as brechas deixadas pelo caminho. É o que faço. Procuro furos nos meus argumentos, crio contra-argumentos, releio tudo muito atentamente para evitar um ponto fraco que possa me derrotar em qualquer discussão. O difícil, mesmo, é encontrar quem esteja disposto a discutir. São poucos os que escolhem o árduo trabalho do debate quando se tem maravilhas como o 9gag. Um clique e todos os seus amigos são informados sobre o que interessa a você. Discutir por quê? Compartilhar é o novo preto.

Música para os ouvidos



Call me obsessiva (achei “chamem-me” feio para começar um parágrafo, desculpa, língua portuguesa), mas, sim, falarei da Adele. Pensei várias vezes em escrever sobre ela, mas sempre me segurava, afinal eu venho falando dela há meses, já é a artista mais ouvida no Last.fm, vivo repetindo como não posso morrer antes de assistir a um show dela pessoalmente. Sinceramente, eu gosto dessas paixões doentias por alguma coisa. Sou muito de extremos: amo ou odeio.


Adele está aí para que todo mundo veja desde 2008, quando lançou o ótimo 19 – que eu só notei que era ótimo depois de me apaixonar pelo 21. Ganhou 2 Grammy, muita notoriedade, mas eu só ouvi o CD poucas vezes e vida que segue. Mas eis que, no início deste ano, assisti à seguinte apresentação:



Não preciso dizer que isso despertou em mim algo que eu não sentia por um artista há muito, muito tempo. Não sei exatamente nem se já tinha sentido. O que eu vi foi mais do que uma apresentação linda e uma música tocante. É possível perceber facilmente que ela sentia cada palavra que dizia, que aquela letra significava algo para ela. O que eu enxerguei foi sinceridade. E foi algo tão arrebatador que eu imediatamente fui procurar o CD para perceber que todo ele continha essas letras tristes, sim, mas verdadeiras como pouca coisa que eu por acaso já tenha ouvido na vida.

Outra coisa que me encanta na Adele é a simplicidade com que ela transforma suas apresentações em performances grandiosas. É como emergir de um mergulho sem cilindro de oxigênio, sabe? Escapar de um ambiente claustrofóbico para o ar puro e dar uma boa respirada. Não tenho nada contra artistas que usam muitos efeitos, fantasias e um palco cheio de distrações reluzentes, até gosto de alguns deles e realmente acho, hoje, que Lady Gaga (só para citar um exemplo) tem muito mérito no sucesso que faz. Entretanto, foi com alívio que eu assisti a várias apresentações da Adele. Sem efeitos, sem dançarinos no palco, sem roupas espalhafatosas, sem clipes polêmicos, apenas ela e sua música numa harmonia difícil de se ver no atual mercado fonográfico.

Mesmo caindo no óbvio e falando do que todas as resenhas sobre Adele já citaram, também chama atenção o biótipo nada típico que Adele exibe. Não que isso seja relevante a qualquer profissional (a não ser que você seja modelo), mas é difícil fazer tanto sucesso sem estampar capas de revistas mostrando um corpo desejável, seios siliconados, bumbum durinho sem celulites. Adele se difere de tudo isso. Gordinha, quase sempre vestida elegantemente com seus modelitos carregados de negro, cabelos e uma maquiagem retrô, sempre discretos. O que poderia representar uma desvantagem acabou se mostrando uma arma: a internet está cheia de tutoriais de moda e maquiagem sobre o estilo da Adele e muita gente procura imitar as produções da cantora. E como não querer imitar seu estilo? Parece que tudo nela se encaixa, tudo é perfeito do jeito que é.

Como se não bastasse, Adele sabe cantar! Como ela ousa ser uma cantora que realmente canta? Ela não entende que já inventaram inúmeras possibilidades de mascarar uma desafinação? Aliás, música é para divertir, não para levar a sério. Quem se preocupa com os talentos vocais de uma cantora hoje em dia? Bitch, please! Bem, não vou nem comentar sobre a simpatia que ela demonstra nos shows.

Apesar de tudo o que eu falei, o que realmente me encanta na Adele é a sinceridade que eu citei. Assistir às apresentações dela e ver que, em inúmeras, ela de fato se emociona é de deixar qualquer um apaixonado. Ela não chegou àquele palco porque uma grande gravadora enxergou nela uma possibilidade sólida de transformar alguém em sucesso, mas porque ela realmente ama o que faz e sente o que diz. Por isso tanta identificação com ela: Adele canta o que se passa no coração de muita gente que não sabe como se expressar. E mesmo que não se sinta o que Adele sente, ela convence de tal forma (porque é verdade!) que a empatia é imediata. Ame ou odeie, mas é necessário reconhecer que ela é uma artista na melhor concepção da palavra.

Eu já estava saturada de produtos criados artificialmente, de gente que se diz cantor(a) e não canta, de fantasias, de plumas, de luzes. Adele é um descanso aos ouvidos, um oásis de legítima arte em meio a um mundo carregado de tecnologia e carente de verdades e ideais (não que frustração amorosa seja ideal, acho que deu para entender perfeitamente). Adele representa sobretudo a esperança de que ser você mesmo e acreditar que isso é bom pode trazer reconhecimento; que nem só de gente magérrima, com pouca roupa e autotune se faz música quando o foco principal é, de fato, a música.

Parem com as comédias românticas!


Inspirado em uma conversa com o Ti.



Querido diário,



Hoje fui com a Ju assistir a um filme que estreou nessa semana e ela queria muito ver. Era um filminho de amor/comédia meio bobo, mas ela queria muito ver. E, saindo do cinema, cheguei à conclusão de que eu definitivamente prefiro filmes de aventura, terror, fantasia... Qualquer coisa, menos comédia romântica. Comédias românticas são a coisa mais idiota do cinema, e eu vou dizer por quê.


A Ju acha fofo como as coisas acabam sempre bem, com uma trilha sonora alegre no fundo. Ela diz que dá uma sensação de esperança, de que ela ainda vai mudar o status do Facebook dela para “em um relacionamento sério” (daí para “noiva de” e de lá para “casada com”). Mas eu digo que isso só vale se você não for a outra parte da história, a que foi abandonada praticamente no altar para que o casal protagonista fosse feliz para sempre.

Pensa comigo. Toda comédia romântica não segue uma fórmula? Sempre fala de um homem e uma mulher que 1) se conhecem desde sempre, mas não percebem estar apaixonados; 2) se conhecem em uma situação em que nenhum dos dois gosta um do outro e acabam se apaixonando. O problema começa aqui: qualquer menina romântica pode escrever roteiro de filme assim, porque o começo e o final são sempre os mesmos. O meio da história muda um pouco, mas as pontas sempre são as mesmas.

Esse filme que a gente foi assistir, por exemplo, começa com um casal... opa, no começo eles não são casal, é só no final.... Enfim, começa com um homem e uma mulher que são amigos, ela dá pequenas demonstrações de que TÁ QUERENDO, e o cara nem tchum. Normal, homem demora pra perceber essas coisas mesmo (babacas!). Mas aí a mulher vai cuidar da vida dela, porque afinal não pode ficar esperando o lerdo tomar atitude, e vai embora. Então ela conhece outro cara, que pede ela em casamento e aí a gente já sabe o que acontece. O babacão lá do início percebe, FINALMENTE, o quanto a mulher era importante para ele e fica desesperado porque vai perder o amor da vida dele para um WHO qualquer que apareceu só depois dos 30 minutos iniciais de filme.

Não é injusto que tudo dê certo pra esse idiota? Enquanto ela estava disponível, nem percebia a menina fazendo de tudo por ele. E, quando ela consegue um marido pra chamar de seu, vai o cara atrapalhar a vida dela. De novo! E o ex-futuro-marido era rico, lindo, gostoso etc. Tadinho. Ele não tem culpa! Ele também merece ser feliz! Ou seja, comédias românticas não contam o tempo que a pessoa chutada pros créditos finais do filme gastou chorando, ouvindo música triste, odiando cada casal feliz que encontrava pela rua até conseguir superar a humilhação de ser trocado por outro(a) na prorrogação. QUE MUNDO É ESTE?

Além disso, incentiva aquele velho hábito que quase todo mundo tem de só dar valor ao que possui depois de ver escapando entre os dedos. Para mim, a mulher tinha que se apaixonar DE VERDADE pelo segundo cara e sambar nas fuças do primeiro, com direito a “baba, baby, baby, baba, baba” de trilha sonora. É pra torturar duas vezes mesmo: sentimental e musicalmente. Ele deveria ter ficado com a lição e aprender a olhar para o lado da próxima vez que uma garota legal desse condição. Você ignora sua alma gêmea durante toda a vida e basta chegar na hora do “quem tiver algo contra este matrimônio que fale agora ou cale-se para sempre”, tomar a noiva nos braços e ter seu final feliz? QUE MUNDO É ESTE?

Sério, comédia romântica só prova de que quem não merece acaba se dando bem e que gente apaixonada tem memória curta. E que você pode curtir sua vida à vontade enquanto a pessoa que você ama de verdade não tem um anel de compromisso no dedo. A partir daí, sim, você precisa se espertar. Mas para que perder tempo antes, não é mesmo? O outro idiota vai estar sempre esperando você adquirir a capacidade de reconhecer de quem você realmente gosta, então tudo bem.

Por isso eu prefiro aventura. Pelo menos eu sei que não vou ser morta por um monstro marinho ou carros que viram robôs gigantes.


Até a próxima,


Nanda.

Loucura, loucura, loucura!

Então vamos parar de dramas e pieguices neste blog feito de postagens esporádicas. Acho que meu forte é mesmo reclamar, sempre me parece ser mais interessante. Felicidade demais ou tristeza demais costumam ser origem dos piores textos que eu escrevo e dos quais eu sentirei mais vergonha futuramente. Portanto, acompanhem.




Podem me acusar de estar sofrendo de algum distúrbio de Peter Pan, mas quem me conhece sabe que eu levo animações muito a sério. É difícil algum filme causar maiores expectativas em mim do que boas animações (exceção para Harry Potter, por motivos óbvios). Em 2010, por exemplo, meu filme preferido foi Toy Story 3. Minha monografia de pós-graduação foi sobre a influência das trilhas sonoras nos filmes de animação, com embasamentos na análise das músicas usadas em WALL-E. O filme que mais marcou minha infância, junto com Os Goonies, foi A Bela e a Fera. Não que eu ache toda animação boa, lógico, mas eu gosto bastante do assunto e não me limito a apenas assistir aos filmes e ficar nisso. Quero comprar os DVDs, quero ter as trilhas sonoras, quero saber quem fez tudo. Um dia, depois de assistir Carros, fui pesquisar quem era o dublador do Mate, que é um dos coadjuvantes mais carismáticos na minha opinião de Pixar-maníaca. Nessa pesquisa, descobri que se tratava de Mário Jorge de Andrade, também dublador do Burro de Shrek, outro personagem que está entre meus preferidos. E essa coincidência fez com que eu me interessasse mais ainda em conhecer os processos de produção de animações.


Ultimamente, a profissão de dublador tem chamado bastante atenção do público em geral. O que antes era mais restrito aos fãs de anime está sendo propagado entre outros nichos e isso é ótimo. Podemos presenciar o reconhecimento de uma profissão à qual antes não se dava tanta importância, mas que agora tem rostos mais que conhecidos por fãs de filmes e séries. Mas isso abriu precedentes para uma estratégia de marketing que nem sempre favorece o espectador, e sim distribuidoras e estúdios cinematográficos: a escolha de artistas “famosos” em vez de pessoas que realmente dedicam sua carreira à dublagem. Isso não está errado, porque dubladores nada mais são que atores que têm na voz a sua forma de interpretar. Se um ator mais popular é competente também na dublagem, por que não? Está aí Orlando Drummond, que é um ícone da dublagem brasileira, pra provar que é possível ser as duas coisas. Alguém contesta a competência de um nome desses para a atuação e para a dublagem?

E aqui vai mais um mas: o problema começa quando o tal ator só é escalado para ter seu nome impresso em fonte maior do que à do título do filme no pôster e chamar a atenção do maior número de pessoas que se interessarem em ir ouvir a dublagem, não assistir ao filme. Então nos presenteiam com escolhas bizarras e somos obrigados a ter que ouvir Luciano Huck como dublador de Flynn Rider, em Enrolados. E todos choram, com razão.

A dublagem de Enrolados é uma das coisas mais mal feitas que eu já tive o desprazer de testemunhar como fã de animações. É um mistério pra mim como a Disney Brasil, reconhecidamente muito exigente com seus produtos, pôde permitir que uma escolha infeliz dessas arruinasse quase completamente um filme. Sinceramente, eu prefiro animações nas suas versões dubladas, elas normalmente são muito melhores, pois há uma liberdade maior em adaptar os diálogos conforme nossa cultura. Raras são as exceções em que o original fica melhor. Nem Shrek, com Eddie Murphy, Cameron Diaz e Antonio Banderas, supera a versão brasileira. Palavra de quem já assistiu às duas versões repetidas vezes. Daí vem a senhora Disney e me obrigada a baixar o filme pra poder assistir a versão original. E depois querem processar sites de compartilhamento de arquivos e torrents! Faça-me o favor.

Luciano Huck não tem a menor capacidade pra atuar, e isso pode ser notado até na forma como ele dubla. Ele. Não. É. Ator. Eu desejo saber, do fundo do meu coração, se alguém responsável pelo processo de dublagem desse filme ouviu isso pronto e decidiu deixar do jeito que estava mesmo depois de ouvir Huck assassinando o personagem lentamente a cada linha de fala. Não tinha um ator melhor e igualmente conhecido pra fazer isso? Seriously? Essa dublagem é uma afronta aos fãs de animação. Pior: o filme é muito bom! Flynn Rider é um personagem ótimo, engraçado, um protagonista interessante. Este é um caso em que a dublagem realmente comprometeu a qualidade do filme inteiro, o que é perceptível mesmo para leigos que não se preocupam tanto com esses “detalhes”. Fui procurar opiniões sobre o filme pra saber se eu que sou implicante demais e descobri que muita gente pensa como eu. Não li uma crítica positiva em relação ao Luciano Huck. Não uma crítica embasada, porque né, sempre tem aqueles fãs que adoram dizer em caps lock que DESCORDO PLENAMENTE!!!! A DUBLAGEN TAVA MARAVILHOSA O LUCIANO HULK EH ECELENTE EU AMO A PIXAR (N.d.A.: eu sei que Enrolados não é Pixar, just for the record). Adoro os filmes da Disney, muitos deles estão entre meus preferidos, mas esse foi um belíssimo tiro no pé. Aposto que muita gente deixou de gostar do filme por causa da dublagem, não pelo enredo em si.

Sério, Disney, por quê? Ouve-se tanto falar que tudo precisa passar pelo crivo dos licenciadores, que se costumam censurar palavras que eles julgam inadequadas para certas idades, que tudo precisa estar dentro de uma lista imensa de critérios... E o filme INTEIRO com uma dublagem indigna para o nível da Disney, ninguém viu? Não faz o menor sentido. Seria realmente o caso de algum responsável dar um retorno ao público, mesmo que para colocar panos quentes e dizer que o Luciano Huck se esforçou muito e deu o melhor de si.

Minha esperança é de que o DVD seja lançado com a dublagem do Raphael Rossato, que chegou a dublar os trailers e todas as canções do filme (as músicas, aliás, ficaram excelentes). Mas se nem toda minha indignação foi suficiente pra convencer, vejam/ouçam vocês mesmos e discordem se tiverem coragem.

Primeiro, o original, com o Zachary Levi (dizem que é um tal de Chuck... Sorry, não vejo)




A dublagem feita por Raphael Rossato, um profissional:



Agora é LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!




Sem mais a declarar.

Amizade: ambiguidade

E já que o @zirpoli tratou de espalhar meu texto mesmo depois de eu dizer que era apenas para um seleto grupo ler, bora postar no blog.



Amizade: ambiguidade
Por Érika Zemuner




Amizade é coisa frágil.

Leva-se muito tempo para construir uma amizade verdadeira. A confiança vai surgindo de forma gradual, conquistada com muita dedicação. Mas um erro e ela desmorona como caixas de cereal na prateleira do supermercado porque você queria aquela que estava escondidinha lá atrás.

Quando acontece uma identificação forte com seu amigo, vocês juram que não há nada no mundo que possa separá-los, que nunca haverá decepção ou mentira suficientemente forte que seja capaz de destruir o que foi construído. Vocês juram que não haverá mentiras ou decepções. Então um deslize acontece e uma briga, mesmo a primeira, pode ser suficiente para causar um dano irreversível.

Quando fazemos amigos, também criamos expectativas. Logo imaginamos como estaremos no futuro, que nosso amigo estará ao nosso lado sob qualquer circunstância, para vibrar junto com nossas conquistas ou para nos oferecer algumas horas do seu tempo quando as lágrimas são de tristeza. Aí a vida nos obriga a tomar diferentes caminhos, nós ficamos naturalmente mais distantes e, sem perceber, aquele amigo que estava nos planos do futuro torna-se um estranho em pouco tempo.

Fazemos questão de dedicar cada pouco tempo de nossas vidas a esses amigos, mas de repente a vida fica corrida demais e o amigo não é mais prioridade. E não é culpa de ninguém. A vida trata de separar sozinha pessoas que nasceram para completar umas às outras.

Amizade é coisa muito poderosa.

Quando bem cultivada, não há divergência que destrua a relação entre amigos verdadeiros. Aliás, amigos de verdade adoram discordar, porque sabem que a outra pessoa nunca iria abandoná-la ou virar-lhe a cara por causa de uma discussão.

Quando a verdade é o pilar de uma amizade, ela pode ser indestrutível. Porque não há coisa mais eficiente contra um relacionamento que a mentira. Então seu amigo irá entender seus erros e estará pronto para perdoá-lo com sinceridade, pois você também já precisou relevar outras coisas.

Não suportamos a forma como alguém da família deixa tudo bagunçado pela casa, mas em nossos amigos amamos até aquela característica mais irritante. E isso, no fundo, faz parte da personalidade dos nossos amigos, pois, sem esses defeitos, eles não seriam tão perfeitos.

Quando dois amigos se amam, não há distância ou tempo contra. Pode haver centenas de quilômetros ou meses e anos separando duas pessoas, mas cada conversa ou encontro apagam as adversidades. E é como se nunca houvesse uma separação.

Quando há amizade verdadeira, não são necessárias muitas demonstrações e provas de afeto. Um olhar é suficiente. Quando dois amigos de conhecem, um completa os pensamentos do outro, sabem o que o outro pensa apenas por um gesto, sabe que a pessoa não está passando por um bom dia num simples cumprimento levemente mais desanimado que o habitual.

Amigos sabem se comunicar por detalhes que ninguém mais percebe. Há um código que pertence apenas a eles, que eles conquistaram sendo cúmplices um do outro.

Amigos não têm medo de nos perder para outras pessoas, pois sabem que o que existe entre nós e eles é único e incomparável. Mesmo nas piores crises, há a certeza de que a pessoa voltará – decepcionado, pedindo desculpas, arrependido, mas voltará. E nós estaremos prontos para compreender e esquecer novamente, porque, oras, é isso que amigos fazem.

Amizade é uma coisa contraditória e complicada. E, normalmente, quando mais complicado algo é, mais vale a pena.

Divina tragédia: os 3 infernos


Não se deixe enganar pela falsa sensação pacífica. Esta foto deve ter sido feita num feriado.


Mesmo correndo o risco de ser óbvia e insistir em socar a mesma tecla, preciso expressar publicamente as últimas experiências vividas por mim nessas semanas que se passaram e, para o bem da minha saúde mental, terminaram. Mas não me alegro e nem me iludo, pois outras semelhantes virão (N.d.A.: olha, eu escrevi isso no final de setembro, mas é perfeito pro momento, então nem vou mudar a introdução).

A parte boa da última semana (ou meses) que se passou é que houve muito aprendizado. Aprendi que não devo ignorar a presença de um cálculo renal quando ele aparece. Isso demonstra uma propensão a desenvolver outros e pode levar você ao hospital num domingo à noite, quando a única pessoa com carteira e meia-coragem pra dirigir está viajando. Além disso, a pessoa mencionada pode voltar poota da vida, dizendo que dessa vez vai obrigar a filha relapsa a ir a um médico de qualquer forma, mesmo que a filhinha tenha completado 26 anos de pura irresponsabilidade com a própria saúde. Outra lição que guardarei pra vida toda é: nunca, em hipótese alguma, entre em um ônibus biarticulado em Curitiba caso esteja chovendo. Nunca.

Qual a relação entre ônibus e chuva? A mesma que chuva e trânsito; a mesma que fila e gente babaca; a mesma que atraso e sinal vermelho; a mesma que pressa e computador travado; a mesma que pressa e velhinhas na calçada; a mesma que sua vida e a lei de Murphy: na teoria, nenhuma. Mas essas coisas costumam se atrair numa freqüência de deixar qualquer monge maluco da vida. O ser humano deve ter sido programado pra entrar em pane total diante de uma situação de ajuntamento popular. Porque simplesmente não há explicação lógica para o comportamento das pessoas no meio da multidão, principalmente se a multidão é usuária do sistema público de transporte.

O pior disso tudo é que, possivelmente, eu ainda estou reclamando de um dos sistemas de transporte mais eficientes do país. Desculpa, mas ser “mais eficiente” diante de uma total falta de parâmetro não me serve. Não interessa se fulaninho lá no meio do país enfrenta mais dificuldades que eu. Os ônibus em Curitiba continuam superlotados, as pessoas continuam mal educadas, o trânsito continua estressante aqui onde eu moro. Digo isso porque, sempre que quero descontar minha frustração cotidiana com o planejamento urbano da cidade, tem alguém pra dizer que ouviu falar de alguém que pega vinte ônibus, dois metrôs e ainda anda quinze quilômetros pra chegar no raio que o parta. Engraçado que nivelar por baixo não era argumento quando eu estudava, ia “mal” numa prova (ficar 0,5 abaixo da média, sei lá) e dizia que todos os meus amigos também enfrentaram dificuldades. Sempre ouvia um “mas eu não sou mãe do fulano”. Agora, quando eu me sinto prejudicada moralmente, é válido usar a desgraça alheia. Pera lá, né.

Passei de desempregada para usuária de biarticulado(s). Não sei o que é pior. No início, como eu sou covarde demais pra me aventurar a usar uma linha que desconheço, ia com o micro-ônibus que passa aqui perto de casa até o centro e de lá pegava outro em que permanecia por apenas três estações-tubo. Mas aí essa conta começa a pesar no meu salário de assistente editorial e eu tive que sair e enfrentar a vida. Acompanhe: o dia começa com um Interbairros III tranquilo, uns 10 minutos de viagem até o terminal. No terminal é que começa o drama propriamente dito. Lá eu entro no Centenário/Campo Comprido. Não é possível mesmo que um ônibus com a palavra “campo” seja uma experiência edificante. Normalmente, espero uns dois desses passarem pra entrar em um mais tranquilo em que sobre pelo menos um caninho em que segurar (pois é, vida que eu tenho nego pena que é fácil). Sem maiores detalhes (que virão a seguir, aguarde), chego a outro tubo no centro e lá finalmente embarco no Santa Cândida/Capão Raso, que me deixará perto do trabalho.

O problema, no entanto, não é a viagem, não é o estado dos terminais de ônibus da cidade, não são as estações-tubo. O problema são as pessoas. Pessoas. Todas entram em tamanho estado de desespero por sei-lá-o-quê que já embarcam mirando qualquer lugar pra se agarrar e lá permanecer até seu ponto de chegada, mesmo que você esteja nesse lugar. Ou seja, primeiro erro: galera não aprendeu na escola a lição básica de que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Há também aqueles que querem ficar sentados lindos e cheirosos (not) em seu banquinho até o ponto em que precisará descer. Daí, chegando perto, nota que vai precisar sair de lá na força e sai empurrando o que estiver na frente no melhor estilo jogador de rugby. E dá-lhe agarrar bolsa, fones de ouvido, tudo o que estiver levando consigo para que nada saia do ônibus sem você – isso quando não é necessário tomar o devido cuidado para que você não seja levado pela massa pra fora ou pra dentro do ônibus. Então você sobrevive à viagem, chega no tubo e descobre aquela galera parada na porta esperando para entrar naquele ônibus de que você acabou de sair. É um Deus nos acuda! Mais uma vez as pessoas desafiam as leis da física. Então, no final, quando só falta aquele terceiro ônibus pra essa epopéia terminar, vem mais dificuldade: as pessoas que precisam descer não se contentam em ficar perto da porta, elas precisam ficar agarradas NA PORTA mesmo que não precisem descer no próximo ponto. A distribuição demográfica é comovente: portas 2 e 4 (de saída) entulhadas e o resto do ônibus muito sossegado.

Esses problemas quadruplicam em dia de chuva, porque, não sei o que acontece, mas o povo perde a capacidade de raciocínio em situações adversas. O pessoal que quer sair de um ônibus se choca com aqueles que querem pegar o mesmo e com os que querem ir nas outras portas para embarcar em outro. Tudo. No. Mesmo. Lugar. Do. Tubo. Só sei que na última quarta-feira, quando mais choveu no horário de rush, quase entrei involuntariamente em um ônibus que não precisava tamanha foi a fúria da multidão querendo passar. Mais à frente, uma garota começava a empurrar as pessoas para conseguir passar e, quando finalmente saiu de onde se concentrava a muvuca, esbravejava que tinham passado a mão nela no meio da confusão. Muita classe, muito glamour, muito brilho, muita felicidade.

Interbairros III, Centenário, Santa Cândida. Você pode chamar o inferno por qualquer um desses nomes, pois eu duvido que exista neste ou em qualquer outro mundo uma representação melhor da morada do capeta. É por essas que eu duvido seriamente da existência de céu, purgatório e inferno. Não aceito que enfrentar essa rotina todos os dias não seja parte da quitação da minha dívida, eu não tenho tantos pecados assim pra pagar. O inferno é aqui, o inferno são os outros, já diziam os Titãs.

Homens discutem (e como discutem! ) Crepúsculo


Olá pra você que está acostumado a ler minhas opiniões por aqui. Hoje brincaremos de algo um pouco diferente. O Arthur Melo (sim, o grande ADPC¹) pediu pra que eu cedesse um espaço pra ele hoje, afinal ele ainda não tem um blog próprio além daquele de cinema lá. Então o texto que se segue é dele, a opinião é dele, a culpa toda é dele. Eu só aluguei o terreno.

Sem maiores explicações, deixo meus queridos leitores com o Arthur.

¹ Arthur Do Pipoca Combo


* * *

Crepúsculo: a visão de quem NÃO inveja o Edward
Por Arthur Melo


Porque né, inveja... Disso?


Eu deveria estar fazendo uma resenha que encerrará uma das matérias destes últimos períodos da faculdade. Mas eu cometi a imbecilidade de dar uma passada rápida no Orkut e caí que nem um pato em um tópico da @erikaczb, postado em uma comunidade frequentada por nós e outros tantos amigos. O tópico em questão era sobre o bate-rebate entre Maurício Saldanha (do popular Cabine Celular) e o crítico de cinema Pablo Villaça (excelente em sua profissão, um tantinho chato no Twitter), do Cinema em Cena. O motivo? A Saga Crepúsculo e seus respectivos vídeos abordando a série, desencadeados pelo lançamento do mais recente filme, Eclipse.

Se um ou outro está tentando se promover, isso não entra em discussão aqui. Mas eu confesso que me senti atingido pelas inverdades proferidas pelo MS (vou abreviar o nome de ambos daqui para frente) em seu vídeo – o que é muito curioso, porque, normalmente, são as verdades que queremos esconder que alfinetam a gente. A questão é que alguns de seus pseudo-argumentos são tão inquietantes que eu me vejo na obrigação de desmenti-lo. E, como o PV disse em seu vídeo, não há melhor forma de responder/comentar/debater do que argumentando bem e, claro, dando exemplos. Pois bem. Eis aqui um exemplo em ação.

Antes de iniciar de fato (eu prometo que farei isso sem enrolar mais do que já o fiz), quero deixar claro que, caso a proprietária deste blog me permita tomar emprestado este espaço apenas por hoje, isso não significa que ela está de acordo com tudo o que for falado aqui, e nem que divide comigo as opiniões e argumentos – sejam parciais ou em sua totalidade. De qualquer forma, como eu bem prometi a ela (NdB: ele tinha prometido que esse blog sairia dia 01/07. Espero até agora.), em breve criarei um blog para incitar a discussão de um bando de coisa broxante ou excitante que vejo pelo mundo – estresses proporcionados por comentários idiotas de pessoas no Twitter podem vir a se tornarem gigantescas teses. Assim, como ainda não construí minha casa, vim pedir abrigo nesta noite de tempestade.

Vamos lá. Como bem disse o @gabrielvilela no tópico supracitado, o que pode ter levado o PV a gravar e publicar um vídeo resposta para o MS é bem aquilo que o mesmo comenta no finalzinho. Para alguns, cinema é religião. Para alguns, ouvir e ter de engolir certas coisas, sabendo que tantas mentes serão infestadas por esses raciocínios chulos já mastigados e errôneos, é frustrante. É como saber que uma mentira está sendo proferida e você não pode fazer nada. Por sorte, ele tem alguma projeção no meio, e logo tratou de desfazer a besteira.

Como alguns sabem – me refiro ao círculo mais próximo – eu também escrevo minhas críticas no meu site, Pipoca Combo. Por vezes fui atacado e xingado por não ter sido tão benevolente com alguns filmes que possuem legiões de fãs. O último foi Percy Jackson. Para minha felicidade, algumas opiniões mudaram depois que o filme estreara e houve até pedidos de desculpas. Ok, isso não vem ao caso. É de Crepúsculo que estamos falando.

Bom, sou homem, vez ou outra tenho um surto de altruísmo, sei ser simpático e acredito que já fui mais romântico. Isso me faz incapaz de ler e compreender Crepúsculo? Não. Até porque, qual a dificuldade de extrair daquele monte de páginas o que Stephenie Meyer quer passar? Nenhuma. A verdade é que eu simpatizei (eu juro que é verdade) com Crepúsculo, no início do livro. Quando o li, ainda não havia filme, não havia tanta histeria e, portanto, ninguém pode me acusar de que desgostei só porque não queria me render a uma modinha ou só porque eu sou fã declarado de Harry Potter. Convenhamos, àquela época (e ainda hoje), Crepúsculo não era ameaça para ninguém. Quem conhecia aquilo? Ocorre que li devagar, no meu tempo, com cuidado e certo interesse; do início ao fim. Queria muito saber como o romance iria terminar e a que passo estaria Bella quando o ponto final fosse dado. Mas, em nenhum momento, deixei de notar os problemas.

Certo. Faço críticas de cinema e estou bem acostumado com isso. Mas eu sou estudante de Letras e, pelo o que me consta, ao cabo de sete períodos e tendo sempre excelentes resultados nas matérias de literaturas (por mais que eu sempre achasse que não estava indo bem), acho que isso me dá alguma autoridade – pequena, tudo bem – para comentar a “obra” (e aqui eu posso me dar ao luxo de estar minimamente mais seguro do que o Villaça neste ponto, apesar dele ter demonstrado um ótimo conhecimento em seus comentários que rondavam o campo literário). Meyer é, mesmo, ruim. Na forma (o que confesso que levei mais do que 35 páginas para confirmar) e no conteúdo (caiu a ficha no segundo capítulo). Seus períodos (estou falando de gramática), demasiadamente longos, demonstram um despreparo gritante em resumir ideias. Várias vezes insere conjunções e composições frasais para substituir uma palavra, acreditando estar construindo uma definição mais elaborada ou descrevendo com maiores detalhes um elemento da cena narrada quando, se olharmos bem, está moendo o mesmo grão duas vezes – infelizmente, não estou de posse do livro, não o sei de cor e não me prestarei a buscá-lo e procurar um trecho bem esdrúxulo para exemplificar (sim, porque para que algumas pessoas entendam que aquilo que amam é ruim, temos de sinalizar com neon, pessoas seminuas dançando em volta e ainda pedir para os Meninos Cantores de Viena declamarem).

No conteúdo, a problemática se agrava. Tentando não repetir outros argumentos do PV e até do Felipe Neto (que eu acho ultra tosco, mas, convenhamos, falou ótimas verdades no seu último vídeo), apenas recapitulo o quão mal desenvoltos são esses personagens. Quer dizer, Edward é um vampiro cuja única ligação com a popular imagem do mito é se alimentar de sangue. Presas, voar, virar pó sob o Sol, se transformar em morcego e pertencer ao lado das trevas foi abandonado. A coisa foi biologicamente reduzida demais: é apenas um ser humano que não envelhece, não possui mais reações fisiológicas e nutre suas forças com o sangue alheio, já que não o produz mais. Jacob é um lobisomem cuja única ligação com o então mito é se transformar em um lobo. Ou seja, o horrível galã Gary Oldman (oi, Saldanha) perdeu uma ótima oportunidade de atrair gritos e suspiros em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, porque se formos comparar, não enxergaremos diferença entre um e outro. Jacob é, apenas, um cãozinho maior. Vou criar um livro sobre um alienígena. Ele será um ser da nossa fauna que nunca fora visto antes por nenhum cientista. Será estranho, verde, terá cabeça grande, olhos desproporcionais, braços longos e pernas curtas. Olha, ele não veio de outro planeta, mas as características “principais” batem, tá? Então É UM ALIEN!!!!!!11111111

Bom, já a Bella é uma adolescente irritante, incapaz de conviver com amenidades da vida e por isso resolve ir morar com o pai, isolando-se do mundo que amava. Não é inteligente, não é tão bonita e está longe de ser aquela pessoa super alto-astral que você convida para um cinema. O que um sujeito de séculos de existência e experiências acumuladas veria nela? Mas se Bella, aquela porcariazinha, pode, isso quer dizer que todas as leitoras, se colocando no mesmo estado em constituição física e psicológica dela, também estão aptas, partindo de agora, a encontrar o seu príncipe encantado. Isso explica muita coisa.

Por um terço do livro, vemos a pobre e infeliz garota remoendo a nossa paciência enquanto ela ainda está a passos de descobrir que Edward é um vampiro. Na segunda parte desta divisão, vemos um romance que só não se compara aos da Sessão da Tarde porque nestes sempre tem um banho de loja na mocinha embalada por uma música daquelas que a gente toca pra ir fazer faxina em casa (Tipo “Walking on Sunshine”). Daí, no final, mas lá perto do final mesmo, Stephenie se lembra que ela não tem nada para criar um clímax. É, porque a não ser que a tal amiga Jéssica se junte ao descartado Mike para tentar separar Ed de Bella (Malhação feelings), não temos nada para empolgar. E, do nada, surgem os nômades. Sem nenhum contexto ou qualquer relação com a base mitológica – já inexistente – na trama, eles vêm e ameaçam a segurança de Bella. Uma incoerência tão desmoralizante para alguém que se põe a escrever uma história que seria o suficiente para enaltecer uma vergonha na mesma proporção com que os livros são vendidos. É tão lógico e humilhante que chega a parecer uma ofensa a quem está acompanhando esse desenlace à pressas; tão berrante e quase ensurdecedor que até tentaram emendar no primeiro filme da série. Uma lástima para quem aturou.

Já cheguei a duas laudas no Word e conseguiria apontar outros inúmeros problemas além dos que já comentei e os já citados por Villaça e Felipe Neto. Mas eu realmente preciso investir a minha vida em outra coisa que não seja falar de Crepúsculo hoje. Até porque, se já é ridículo três homens discutindo por causa disso, imagina quatro. Mas eu tive que fazer isto. Já ia surtar e sinto que novos argumentos serão lembrados depois de ler alguns possíveis comentários aqui.

Quanto aos comentários do Saldanha... Bem, eu li o livro, não o fiz “nas coxas” e nem decretei como lixo só por implicância. Mas estou acostumado a ler bastante coisa e até já me aventurei em livros bem ruins do público infanto-juvenil, como Percy Jackson. Ao menos no primeiro capítulo já era visível que ao menos a forma de escrita era de alguém que conhece os mecanismos que está usando. Nem isso acontece em Crepúsculo. E sou obrigado a dizer que devem existir rapazes de boa aparência que já tentaram ler ou assistir a algum filme da série e não gostaram por motivos próprios, os quais não obrigatoriamente seriam inveja do corpo ou do rosto (de quem, do Robert?? Pfff) dos protagonistas, porque talvez isso nem tenha sentido para eles, e, ainda, cujas namoradas são bem mais atraentes e simpáticas do que a Bella. Mas dizem que alguns sujeitos que malham pra caramba querem compensar alguma coisa. Quem tiver interesse, pergunte ao “Jacob Lautner”, pra mim tanto faz. A verdade é que eu não gosto de Crepúsculo, não faço musculação e não irrito o sexo oposto gritando no cinema toda vez que a Megan Fox desfila em cena. Acho que quebrei mais alguns argumentos do Saldanha.

Espero, com esse texto, não ter decretado desde já o fim de um blog que nem começou.



Obs: Se você não está entendendo nada do que foi dito aqui, eu, a dona do blog, aconselho você a ver ESTE vídeo, depois ESTE e, finalmente, ESTE.

Harry Potter - O Bater de Asas


Crônicas de Nárnia é a série que substituirá Harry Potter. Não.

Eragon, de Christopher Paolini, chega às telas prometendo ser o sucessor do bruxinho britânico. Também não.

Bússola de Ouro chega com tudo prometendo desbancar o sucesso da obra de J.K. Rowling. Mais uma vez, não.

Então Desventuras em Série terá esse poder... Not.

A saga Crepúsculo disputa com Harry Potter a preferência do público. Dessa eu tive que rir.

Não adianta, Harry Potter não tem, até o presente momento, nenhum concorrente à altura. Toda nova série lançada, seja impressa ou projetada, chega com a promessa de ser tão arrebatadora quanto a série de sete livros que transformou Harry Potter num dos maiores fenômenos literários da história. Acredito que esse tipo de peso só seja atribuído a esses novos títulos na tentativa de mobilizar os curiosos a conhecer tal produto e saber se aquilo tem, de fato, potencial pra suceder a obra de J.K. Sinto muito se isso soar arrogância, mas é fato. Mas isso é apenas o início das coisas que eu poderia falar sobre a importância dessa série na literatura de fantasia, no cinema, pra uma geração e na minha vida.




Já assistiram ao filme “Efeito Borboleta”? Se não assistiram, ao menos sabem do que se trata. A frase do início – algo sobre o bater de asas de uma borboleta ser capaz de produzir um terremoto do outro lado do mundo – resume bem. A qualquer momento, sem saber, podemos estar vivenciando um segundo único em nossas vidas que poderá mudar todo o curso dela a partir dali. Isso é fantástico e, ao mesmo tempo, assustador. Como perceber que determinadas escolhas e palavras terão a força de nos levar a um caminho totalmente diferente do que poderia estar escrito em nosso destino e previamente rservado para nós? Acho que a gente nunca sabe, só vai perceber lá pra frente, fazendo uma reflexão de nossa própria história.


Pois, meus caros, ler “Harry Potter e a Pedra Filosofal” foi o bater de asas da borboleta na vida de muitas pessoas que eu conheço e, certamente, de outras muitas que eu sequer chegarei a conhecer. Tenho absoluta certeza de que muitos dos que lerão este texto estarão concordando em silêncio com a afirmação anterior, pois, se não fosse por este livrinho simples e rápido de ser lido, eu não conheceria a maioria dos que eu sei que chegam ao meu blog. É simplesmente fascinante ter a consciência de que um passo simples e corriqueiro como comprar um livro no supermercado pôde determinar coisas que eu não viveria de outra forma. Já se vão, pra mim, aproximadamente 9 anos em que a série Harry Potter faz parte da minha personalidade. Sim, pois qualquer pessoa que me conheça precisa saber que eu sou a geração Harry Potter, precisa saber que meus melhores amigos vieram junto nesse pacotão de 7 livros. É parte de mim, como dizer que eu cursei Letras, que eu moro em Curitiba, que eu torço pro São Paulo e minha paixão é português e escrever. Resumidamente, uma peça fundamental, que não pode ser ignorada, ou todo o conjunto deixa de funcionar.

Tanta coisa foi vivida nesses anos. Um dia era apenas uma pesquisa pra ter notícias de lançamento do quinto livro, "Ordem da Fênix". No outro, era um fórum de discussões sobre tudo na série, inclusive teorias – uma mais maluca que a outra. Foi nessa época que eu realmente comecei a querer discutir sobre Harry Potter e passei a ser uma “estudiosa”, e não somente uma leitora. Relia várias vezes os livros pra pegar detalhes que outras pessoas não haviam notado e pra rebater aqueles que teorizavam mais com a emoção do que com a razão. Então veio o Orkut e daí pra frente vocês podem imaginar. Em algum tempo, eu estava dentro de um ônibus com destino a São Paulo para assistir ao "Cálice de Fogo", oportunidade em que seria hospedada por uma amiga muito querida, mas que eu nunca havia tido a oportunidade de conhecer pessoalmente. Preciso mesmo dizer que gastei dois meses convencendo minha mãe de que eu não seria sequestrada por tarados?

Mas foi só o começo, pois depois disso viriam outras viagens, um evento potteriano em que eu fiz meu primeiro e único cosplay (não tenho fotos, sorry), outros amigos, Hopi Hari, outras estreias, encontros independentes da série, horas de conversas em msn, cartas trocadas, telefones trocados, confidências trocadas. O compartilhamento de amizades que resistem até hoje à distância, aos preços das passagens, ao desgosto de pais que achavam que os “amiguinhos da internet” eram coisa passageira, que não duraria tanto assim. Permitam-me usar as palavras do @arthurmelo em uma recente postagem no Potterish (aliás, foi lá no fórum do Ish, o Grimmauld Place, n°12, que eu comecei a discutir HP):


"É constatado. Não é uma febre. Não é passageiro. Virar de ponta-cabeça o mundo virtual voltado ao entretenimento em 15 minutos é um trabalho que não se faz e não se prolonga por dez anos. Harry Potter ainda tem a mesma energia do início, ainda move o mesmo número de multidões e deixa todos afobados da mesma maneira – talvez até pior."


Nada era passageiro, nem o amor de quem acompanhou a série, muito menos as amizades geradas por ela. Como é possível um fenômeno desses, que move milhares de pessoas no mundo inteiro e que não perde a força mesmo depois de 13 anos do ponta-pé inicial? Hoje, poucos meses antes da estreia da primeira parte de "Relíquias da Morte", é difícil acreditar que este ciclo está chegando ao fim também no cinema. Mesmo os fãs que, depois de tantos anos, perderam um pouco do interesse pela série sentiram um aperto no coração ao se dar conta de que Harry Potter, afinal, também acabará um dia. É um misto de felicidade por um belo trajeto e uma angústia por ver que esse caminho está nos guiando a um inevitável ponto de chegada. Alegria, tristeza, saudade, expectativa, tudo misturado.

Antes de nós, vieram os tios que hoje se orgulham de ser a “geração Star Wars”, hoje somos nós, potterianos, que nos orgulhamos de ser a “geração Harry Potter”, e isso não é pouca coisa (quantas outras séries faziam os fãs enlouquecerem a ponto de fazê-los irem assistir a um filme com fantasia?). Ainda mais privilegiados são aqueles que, já adultos e praticamente saindo da faculdade, podem dizer que acompanharam o drama da espera pelo quinto livro, a tradução não-oficial da Armada Tradutora (ou qualquer nome por que vocês conhecem eles, é sempre o mesmo pessoal), os eventos, as discussões em fóruns, que chegou a escrever sua própria teoria de como seria o final. Da mesma forma como se alegram os fãs de Lost pela jornada proporcionada pela série, quem acompanhou Harry Potter desde o início pode bater no peito e dizer que Rowling lhe proporcionou uma incrível viagem, da qual se lembrará com carinho e gratidão.

Além de horas de entretenimento e leitura, ganhei amigos, curti uma experiência que, tenho consciência, será única. Conheci pessoas que só passaram pela minha vida porque compartilhavam comigo o gosto por uma série aparentemente despretensiosa. E com essas pessoas vieram muitas lições, novos pontos de vista, foi uma bolha que estourou e me permitiu contato com indivíduos singulares, destinados a cruzar meu caminho em “números binários” e me ensinar que o mundo é grande demais pra eu ter a pretensão de que sei muita coisa. Eu não sei é nada. Não sabia sequer que um livro infanto-juvenil me proporcionaria essas experiências.

Provavelmente eu voltarei a escrever sobre esse mesmo assunto em novembro e em 2011, afinal ainda temos pela frente dois filmes que encerram a saga cinematográfica. Mas eu não queria perder a oportunidade de gastar uns minutos falando sobre mais de uma década dessa coisa mágica que foi Harry Potter (sem trocadilhozinho imbecil de revista que não sabe do que fala). Acho que é pouco perto de tudo com que essas pessoas e livros citados já me presentearam; é nada perto da determinação de uma heroína britânica chamada Joanne Kathleen Rowling em publicar seus livros e, por consequência, ser responsável por esses intermináveis círculos de amizade que se criaram por um gosto em comum.

Escolhas. A gente nunca sabe quando elas determinarão seu futuro ou serão apenas um detalhe no seu cotidiano. Por isso nossas escolhas são tão importantes e, como diria um sábio que eu conheci, determinam quem somos muito mais que nossas qualidades. Muito cuidado com elas.



Dedicado a todos que, de alguma forma, acompanharam Harry junto comigo até aqui e continuarão ao meu lado em veredas futuras.

Copa, patriotismo e rivalidade

Curitiba - Rua XV de Novembro (Foto: @juli_cris - Flickr)


Começo dizendo que simplesmente adoro a @Fabielle por vários motivos. Ela é são-paulina, odeia os Colírios da Capricho (até foi uma das responsáveis pelo @vidadegayroto), fala o que vem na cabeça, tem um blog muito legal e me inspirou a escrever este post que fala sobre coisas que todo mundo discute de 4 em 4 anos. Porque é assim, se não tem assunto, inspire-se nos textos dos outros. E, enquanto eu ia lendo o post dela sobre Copa do Mundo, muitas ideias surgiam na minha cabeça e preferi eu mesma escrever minha opinião no lugar de fazer apenas um comentário quilométrico no blog dela.

Eu sou uma pessoa patriota e não tenho nenhuma dúvida quanto a isso. Amo meu país, acho que este é meu lugar, onde tenho minhas raízes, onde está a cultura que formou meu caráter, a língua que eu tanto amo e me levou a cursar a minha faculdade, um país que eu admiro pela diversidade, por tornar possível a convivência entre católicos, evangélicos, islâmicos, budistas, judeus, asiáticos, europeus, índios e mais quantos tipos você puder imaginar. Acho, inclusive, que aqui brancos e negros têm as mesmas oportunidades. Pra mim, a marginalização tem mais a ver com o status social do que com a cor da pele, ou você não acha que um negro com muito dinheiro também pode desfrutar de muitos privilégios? Mas esse não é o foco, então vou deixar essa discussão de lado (por favor, façam o mesmo). Fico muito revolts com pessoas que possuem banda larga, estudam em escola particular, moram em bairros de classe média, viajam pelo menos anualmente ao exterior, possuem plano de saúde, o video game da moda e ainda dizem que não gostariam de nascer ou morar no Brasil. Filho, você nem sabe o que é passar por dificuldades neste país, se enxerga!

Sim, nós temos defeitos, não sou uma ufanista maluca e utópica que só enxerga a sociedade privilegiada em que eu vivo. Somos o país do futebol, da praia, do carnaval, do “pulmão do mundo” (piada, né), de uma rica diversidade natural, de gente alegre e receptiva, de mulheres bonitas, da Gisele Büdchen, do Pelé, do Machado, do Tom Jobim, do Villa-Lobos, do Santos Dumont, do Lula (yeah, do Lula!), da Zilda Arns; mas também somos o país da desigualdade social, do analfabetismo funcional (que me preocupa mais que o analfabetismo propriamente dito), da mortalidade de bebês nas maternidades, da justiça lenta e para poucos, do jeitinho, do sujeito que quer mais se dar bem e que se danem os outros, da Geisy Arruda, da corrupção, do Collor, do Maluf, do Restart, do Cine, do Fiuk e sua (horrorosa) banda Hori, da Cláudia Leitte, da Susana Vieira, das celebridades de ocasião, dos ex-BBB’s, das mulheres-fruta. Nós temos problemas. Muitos problemas.


Restart: orgulho brasileiro. Not.


Numa coisa eu concordo com a Fabielle: patriotismo de 4 em 4 anos e nada são a mesma coisa. Isso não é patriotismo, é ir com a boiada onde ela vai, é se deixar hipnotizar pelo verde-e-amarelo pintado horrorosamente nos muros. Acho que minha maior contribuição com o país é – pelo menos tentar – votar consciente, acompanhar notícias sobre política, ajudar alguém a achar determinada rua quando me pedem informação, é guardar até o menor lixinho pra jogar na próxima lixeira, é não ficar parada na porta do ônibus porque eu sei que alguém vai querer descer, é usar fones de ouvido porque eu tenho consciência de que as outras pessoas à minha volta não são obrigadas a ouvir a mesma música que de que eu gosto, é não tentar tirar proveito de qualquer situação. Resumidamente, é fazer coisas simples que estão ao meu alcance, fazer o melhor pra poder viver harmoniosamente em sociedade, contribuindo, assim, pra que o lugar em que eu vivo seja um pouco melhor.


Tudo isto posto, reafirmo que eu sou patriota. Além de patriota, sou são-paulina e nunca vou torcer pro Corinthians. Não me importa quem eles estejam enfrentando e pouco me interessa se eles são “o Brasil na Libertadores” (mesmo que isso não aconteça com frequência). Se o jogo for Corinthians vs. Boca Juniors, pode estar certo de que eu estarei cruzando os dedos pra que a bola argentina entre no gol, mas não porque eu gosto da Argentina, e sim porque eu tenho uma rivalidade pessoal com o outro time em questão. O mesmo acontece na Copa. Primeiramente eu vou torcer pelo meu país, independentemente se eu gostar do técnico ou da escalação que ele fez. Torcer, felizmente, não é racional. Também estou c*g*nd* pro fato de que outras seleções possuem mais ídolos que a minha. Normalmente eu assisto jogos de outras seleções porque eu gosto de futebol, sim. Então simpatizar com uma seleção ou outra é perfeitamente saudável e compreensível.

Mas, por favor, não me venha com o papo de que você vai torcer pra um outro país em vez de torcer pelo Brasil. Isso, sim, eu acho uma tentativa miserável de ser do contra e rebelde. A coisa ainda piora quando o argumento pra essa decisão é uma divergência entre quem você queria selecionado e quem o Dunga chamou pra Seleção. É desnecessário, só prova que você tem uma necessidade de chocar quem quer que você ache que se choca com isso. Não é sequer uma questão de ser antipatriota, é de ser bobinho e infantil. A Argentina, a Holanda, a Espanha ou a Costa do Marfim são boas seleções e reúnem seus ídolos no futebol? Ótimo! Mas eu não compreendo quem prefere esperar uma derrota brasileira pra se vangloriar de estar torcendo contra o próprio país. Em vez de se revoltar contra uma seleção de futebol ou tentar usar de sua infinita influência entrando em campanhas pelo Twitter, tente fazer algo útil pelo lugar em que você vive. Nem que seja esperar chegar em casa pra jogar no lixo um mísero papel de bala. Ou vá embora de uma vez e pare de reclamar.


Obs: Caso você não tenha entendido que aquilo lá em cima era um link pro post que inspirou este, repito: clique AQUI pra ler o texto da Fabielle.

Update: Já que estamos falando em Copa e Brasil, a última frase ficou uma vibe super "Ame-o ou deixe-o". Sim, falei antes que alguém o faça.

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