Não estaremos atendendo ao requisito



Férias, domingão, nada de realmente útil pra fazer e eu decido mandar alguns currículos pra tentar a sorte. Sim, a esta altura eu começo a achar que apenas a sorte pode me ajudar, mas deixemos as lamúrias sobre minha falta de perspectiva profissional de lado. O que importa é o que confessarei a seguir: vi um anúncio para vagas em call Center na Brasil Telecom e mandei um currículo pra lá, assim, só pra ver no que dava.

Por que, céus, eu cometi tal ato de autoflagelação comigo mesma (yes, eu curto redundância)?


Flashback
Um dia minha irmã, também aparentemente sem nada melhor a fazer, mandou um currículo para o mesmo lugar. Foi chamada para a dinâmica e, como não estava interessada na vaga, tocou o terror por lá. Foi super sincera, falou o que deu na telha e, para sua surpresa, no final da seleção foi chamada para conversar com as moças que aplicavam os testes. Foi ofertada a ela uma vaga para trabalhar em loja. Ela só não aceitou porque exigiam que ela fosse sempre para o trabalho de cabelo escovado/chapado, mas como ela tem o cabelo bem cacheado, recusou a oferta.
Fim do flashback


Confesso, eu fui apenas na esperança de que aparecesse algo melhor, afinal eu não tinha nada a perder além da passagem de ônibus. Mas eu saí com algo muito melhor daquela sessão de horror: um pouco de noção sobre a educação brasileira.

A coisa toda já começa divertida. Chego na salinha destinada às pobres criaturas em desespero. Tudo em tom de cinza, preto e marrom, inclusive as pessoas¹. Sabe aquela atmosfera escura, nebulosa, de que alguma tragédia está prestes a acontecer? Eu com a minha blusinha branca coberta por outra lilás de lacinho na lateral da gola destoava completamente do clima macabro.

Então a moça apresenta as (des)vantagens de se trabalhar numa empresa do porte da Brasil Telecom. Ou melhor, na Oi. Agora é tudo Oi, a Oi comprou a Brasil Telecom. Oi. Números, estatísticas maravilhosas (que, para os mais espertos, prova o trabalho de dromedário executado pelos funcionários) e os benefícios. Nessa hora me deu vontade de rir. Salário: R$490,00. Isso mesmo. E o anúncio dizia que existiam outras vantagens, tipo plano de saúde, plano dentário, etc. Mas, a cada uma das opções que você escolhe, uma quantia irrisória é descontada desse salário vergonhoso. Quer plano dentário? Volta aqui pra gente seis reais e noventa centavos. A vontade foi de rir na cara da mocinha do RH da empresa, mas minha curiosidade falou mais alto e eu continuei firme e forte (ela disse que quem não se identificasse com as características da empresa poderia sair da sala e desistir).

Momento decisivo: a prova. Conteúdo: português, algo que eles definiram como matemática e informática. Uma das exigências trazidas no anúncio era ensino médio completo e, confesso, minha concepção de um indivíduo com o ensino médio completo estava completamente superestimada a julgar pelo nível da tal provinha. A parte de português trazia algumas questões de múltipla escolha para assinalar a alternativa que apresentava todas as palavras acentuadas corretamente, mas não eram palavras como “pudica”, “boêmia” e essas pegadinhas que ensinam no início do ensino fundamental pra gente. As palavras eram coisas estúpidas como “mágico”, “máquina”, “estágio”. Reforma ortográfica? Nunca se ouviu falar dela. E a matemática? Hehe. Complete as sequências numérica: 2, 4, 6, 8, 10..., ou 0, 5, 10, 15.... Juro que era coisa desse tipo. Gente, sorry aê, mas me dá essa prova enquanto eu estava na 2ª série que eu gabarito do mesmo jeito, vamos combinar, né. A informática só envolvia comandos do Word e você tinha que reconhecer ícones como “abrir novo documento”, “abrir documento existente” e “organizar em ordem alfabética”. E o melhor estava por vir...

Assim que terminasse a prova de sanidade mental conhecimentos gerais, o candidato infeliz era orientado a aguardar em outra salinha ao lado para esperar pela prova de digitação. Nem preciso dizer que saí da tal prova estarrecida e desacreditando que aquilo era a definição de “ensino médio completo”. Mas, graças ao destino, eu sou uma pessoa tímida e mais ouço do que falo em ambientes desconhecidos, porque minha vontade era de pegar um megafone e berrar para o mundo ouvir:
QUEM É O IMBECIL QUE REPROVA NESSE TIPO DE PROVA?

Olha, mas foi por pouco, muito pouco mesmo que eu não cometo uma gafe histórica. Enquanto esperavam ser chamados para a prova de digitação, os pobres coitados que se submeteram à tal seleção começam a confraternizar (a impressão que eu tenho é a de que todos achavam que sua capacidade de socialização e trabalho em grupo estava sendo julgada desde sempre, mesmo que não houvesse ninguém do RH presente na sala). Então uma criatura da qual eu só posso sentir muita pena diz:

- Eu vim fazer a prova há duas semanas, mas como não passei me telefonaram para vir tentar novamente.

O que pensar? Rio ou choro? E não era uma senhora que tivesse terminado os estudos há muitos anos e se esqueceu da tabuada do 2 ou do 5, era uma menina com seus 20 anos, sem qualquer problema mental aparentemente detectável. E são coisas como essa que me fazem repensar alguns dos meus conceitos ultrapassados e o quanto eu subestimo meus conhecimentos (ou, como já disse, superestimo a educação dos outros). Pra mim, qualquer criança apta a cursar a 5ª série deveria saber responder pelo menos as questões de português e matemática. A de informática nem tanto; eu sei que, apesar da minha realidade incluir banda larga como suprimento básico de vida, nem todo mundo vive conectado, tem Twitter ou lê blogs e sites diariamente. Compreensível no meu ponto de vista. Tanto que consegui segurar o riso quando uma - agora sim - senhora disse que viu o símbolo com um “AZ” com uma flechinha para baixo e achou que fosse “procurar em ordem alfabética”.

Depois houve o teste de digitação com um teclado desconfigurado, ruim, velho e torto (sério, era torto) que consistia em copiar e formatar um texto grudado num papel abaixo do monitor (desespero geral, metade foi reprovada e nem voltou para a salinha onde quem terminava a prova voltava para esperar). E finalmente as apresentações. Nome, idade, onde mora, formação, características aleatórias perguntadas pela orientadora da dinâmica. E aquelas pessoas que mal sabiam a sequência crescente dos números pares dizendo que pretendiam crescer dentro da empresa e virar um monitor ou gerente de call center. Será que eu conto que eles nunca passarão da posição daquele povo que a gente tem vontade de xingar quando somos atendidos ou recebemos telefonemas tentando vender coisas? Como uma pessoa que não sabe acentuar uma palavra básica do vocabulário cotidiano sonha em ter um cargo de superioridade dentro de uma empresa? E não adianta dizer que é só se dedicar, ser bom no que faz e aguardar o resultado. Qualquer um sabe que quase a totalidade dos contratados nunca vai passar de atendente de telefone e, munidos da poderosa arma do gerundismo, assassinos do clássico português.

Na minha vez da apresentação, falei que estava fazendo pós-graduação e fui indagada sobre a razão de estar ali naquela seleção, visto que obviamente alguém assim não perderia tempo com isso. Claro que eu tive vontade de dizer “quero ver até que ponto esta palhaçada vai, é só uma observação antropológica”, mas me contive. Fui sincera, falei que só mandei meu currículo porque não tinha nada melhor a fazer e nada a perder, que nem de longe meu sonho era trabalhar ali e eu tinha sonhos maiores pra mim. Hihihi. Geral me olhando assim O___O

Apesar de tudo, saí de lá triste. Triste por quem termina um ensino médio sem ser capaz de coisas que eu já estava cansada de saber antes dos 10 anos de idade. Triste pela educação do país, pela perspectiva profissional daqueles que estavam realmente apostando seu melhor naquele emprego que paga, sem descontar benefícios, 490 reais por mês. Sem saber se eu que sou inteligente ou os outros que não fizeram o mínimo que se espera de alguém alfabetizado. Muito frustrada por constatar que possivelmente eu desconheço a realidade da maioria dos brasileiros, certa de que essa realidade é tão obscura quanto a atmosfera que encontrei quando cheguei com minha combinação de branco, lilás e lacinho na gola.


¹ Depois de reler eu vi que isso soou estranho, mas eu me referia às roupas, não à etnia das pessoas, que fique bem claro.

Então é Natal...

Eu comentei ontem com meus amigos revolucionários que não queria transformar este blog num espaço de reclamação, mas desta vez foi inevitável. E eles ainda disseram que posts indignados são os melhores, então ótimo. Toma reclamação.

* * *

São exatamente 19:42 (horário de Brasília, de verão...), uma terça-feira. Eu tomei meu banho refrescante e bem-vindo nestes tempos de aquecimento global em que nem Curitiba escapa de temperaturas altas (pra mim, que sou fresca, segundo dizem as más línguas que insistem em me ultrajar), estou de pijama, com o cabelo molhado, dividido em quatro partes, que é como eu faço para secá-lo. Estou bastante próxima de ser confundida com a Dona Florinda, eu di
ria. Minha pequena cachorrinha está deitada no tapete de crochê estendido aos pés da minha cama, olhando para a porta, esperançosa de que alguém venha libertá-la do seu convívio forçado comigo (vide foto abaixo). Para entender como nós duas viemos parar em cárcere privado, continue lendo este post.


Dudy says: E agora, quem poderá nos defender?


Cada família tem seu ritual nesta época do ano. É tempo de árvores enfeitadas, de luzinhas em volta de toda a casa (abraços solidários ao horário de verão, que serve justamente pra economizar energia em horários de pico), de amigo secreto, nozes, castanhas, cânticos natalinos, lojas fervendo nos grandes centros, galera recebe o 13° salário e gasta como se não houvesse amanhã, as crianças entram em férias, muito calor, insetos se proliferando, confraternização com o próximo. Esta última parte é a que eu mais odeio de longe: confraternização. E isso, nesta época, significa: NOVENA.

No que consiste uma novena, caros padawans? Ah, isto é um rito à parte. Minha abençoada mãe vai ao centro da cidade, compra velas, castiçais, monta presepinho, coloca o menino Jesus em seu ninho de palha, enche as bombonieres de Sonho de Valsa, leva a Bíblia que normalmente fica num aparador no corredor para a sala e aguarda. Aguarda os sinos badalarem as 19:30 para receber em casa pessoas, sempre mulheres, vizinhas do que elas chamam de “comunidade” somente uma vez por ano ou nos bingos da igreja. Esperto é homem que confraterniza no bar, logo após o trabalho mesmo. E vocês pensam que essas tias gostam disso? Não! Elas só comparecem porque não é socialmente recomendável fugir de compromisso de que ninguém tem coragem de dizer que não gosta. Eu tenho, eu digo, eu não vou! Eu já nem lembro qual a última vez em que eu fui à missa, acham que eu vou frequentar novena com um monte de vizinha que só o faz por obrigação de cara amarrada? Pior: é minha mãe quem organiza as novenas aqui do bairro.

Mas minha mãe não tem coragem de admitir para os vizinhos que tem uma filha perdida que não encontrou Jesus. Então o que acontece? Também se trata de um rito, anualmente repetido. Minha mãe mostra as coisinhas que adquiriu feliz da vida, e eu só “opa, legal, heim” (fora estourar os plásticos bolha em que vieram os souvenires religiosos). Então, quando vai chegando a hora dos convidados chegarem, ela olha ameaçadoramente para mim e minha irmã e diz:

- Vocês vão descer pra rezar? Tem que ir alguém pra não ficar chato, né?

Por que minha mãe ainda me pergunta isso? Eu só queria uma razão, um fato de demonstre que haja alguma chance neste mundo de eu passar uma hora lendo livrinho de catequese e cantando músicas religiosas (em nome do Paaaaaaaaaai, em nome do Fiiiiiiiilho, em nome do Espírito Santoooooo, estamos aquiiiiiiiiiiiiiiiii... Meu coração é para tiiiiiii senhooooooOOooOOooorrrr...). Eu não sei por que ela simplesmente não vai lá e diz que suas filhas não gostam dessas reuniões (e eu não vejo os filhos dos vizinhos aqui em casa, fica a denúncia). Sobra pra quem? Ponto pra quem disse “sua irmã”. Sim, a coitada, cheia de trabalho de fim de semestre na faculdade, precisa parar tudo o que estava fazendo e ir lá, afinal coube a ela a tarefa de amenizar a vergonha pela filha desgarrada aqui. Mas tem uma condição pra eu não ouvir sermão e poder ficar aqui na minha: preciso cuidar da pobre Dudy, a cachorrinha, me trancar no meu cativeiro e fingir que eu não existo enquanto alguém ainda estiver na sala (só minha mãe pra achar que ninguém nunca notou que eu sempre estou fora de casa em dia de novena). Já comentei por aí que um dia vou chegar lá com meus livros de Harry Potter e dizer que preciso rezar virada para Hogwarts pelo menos uma vez por ano! Também já me aconselharam a descer as escadas na posição de ponte e girar a cabeça 360°. Juro que fiquei tentada.

A liberdade de culto religioso – ou não – consta na Declaração dos Direitos Humanos e é um direito constitucional! Assim como as senhoras que neste momento estão na minha sala rezando têm o direito de ler seu livrinho e participar de novenas, eu tenho o direito de não participar, de ser agnóstica ou atéia. Eles não podem me processar por isso; eu posso processar alguém por me manter em cativeiro e ferir minha liberdade de ir e vir. Enquanto isso, estou aqui, com meu cabelo secando (ele vai ficar horroroso amanhã, OMG!), observando minha pobre cachorrinha olhar tristonha para a única saída, esperando o Salvador terminar a conversa lá embaixo e depois vir tirá-la daqui.

Quem é o criminoso, minha gente? Ah, mas é tudo em nome de Deus, da comunidade, da vizinhança. Amém.



PS: Assim que estava terminando de editar a foto que ilustra este post-denúncia, minha mãe entrou no meu quarto dizendo "nossa, como tá calor aqui". Jura, mamy? Deve ser porque essa porta ficou trancada por uma hora enquanto você rezava lá embaixo. Mas deixa eu ir secar meu cabelo.

Mídia velha: Rubinho feelings

Principalmente agora que convivo mais próximo de profissionais da área de comunicação (mesmo que alguns sejam bem limitados em relação à essência da palavra “comunicação”. Ainda discorrerei sobre), constantemente me encontro discutindo o papel da imprensa, da crítica, da internet. Principalmente internet. É tão engraçado e, algumas vezes, embaraçoso perceber que ainda tantos profissionais não estão preparados para a velocidade com que se recebe informação hoje.

Digo isso principalmente devido às últimas tentativas da TV em se adaptar à realidade mainstream dos jovens de classe média (ou da classe baixa que frequenta as lans, por que não? É nóis no morro pagando a hora pra surfar na web, mano!). Normalmente a inserção do que faz sucesso na internet chega atrasada às outras mídias e só representa uma novidade àqueles que não estão, digamos, “conectados” tão constantemente.

Esta nova temporada de Malhação é o mais recente e desastroso exemplo. Além da novelinha teen ter investido em divulgar bandas de gosto bastante duvidoso, agora também resolveu incluir personagens de personalidades completamente equivocadas. Gente, agora existe uma menina emo no negócio! Primeiramente, os emos já me parecem ter saído de moda há certo tempo. Eles eram muito zoados populares há um ano ou mais, mas foram substituídos pelos indies, a galerinha descolada from UK, uma geração que percebeu que franja do lado e roupas de estampa xadrez denunciavam-na para a sociedade. Mas nem mesmo a moda indie é hype como antes, outras coisas surgiram, as coisas se renovaram... E se estamos falando de estilos musicais, isso é ainda mais rápido. Hoje é muito difícil um artista se firmar como ídolo absoluto de uma geração. As coisas estão mais rápidas e obsoletas justamente pela velocidade com que as novidades nos chegam. Outra: a concepção de emo da Globo corresponde a uma adolescente retardada que confunde abraço com homeopatia (até isso é velho, já vi essa personagem no Carrossel, seu nome era Laura).

Aí a gente é obrigado a se deparar, ainda hoje, com capas de revista e matérias em jornais de grandes emissoras falando de Twitter como se fosse a grande novidade do ano. Queridos, isso era novidade em 2007, 2008... Hoje em dia, quem tinha que ter Twitter já tem! Quem não tem resistiu ao movimento dos 140 caracteres e pronto. Fora o constrangimento por que passam os famosos nessas redes de relacionamento. A vítima emblemática foi a Xuxa. Tadinha, se esqueceu de que não estamos mais na década de 80, que ela não desce mais de uma nave e nem a vida na internet é doce, doce, doce, a vida é um doce, vida é mel. Pensou que ia chegar botando as face de todo mundo no chão, ganhando faixa de rainha dos baixinhos e blé. Aham, Cláudia, senta lá. Mais recentemente, Luciano Huck, amigo da rainha, passou por situação igualmente desastrosa: reclamou que o Gugu faz quadros plagiados, sendo respondido prontamente pelo diretor da Record. Ah, Huck ainda é moleque, não pensa no que fala e teve que aprender que quem tem teto vidraça de vidro não deve atirar a primeira pedra. Por isso a Globo impõe certos limites aos seus funcionários quanto ao uso de redes sociais. Quem somos nós pra condenar uma empresa a podar seus contratados que desconhecem a selva de bytes que é o mundo binário?

Eu poderia escrever páginas de exemplos aqui. O Gugu só levou a Stephany Absoluta no programa dele quando a garota do Cross Fox já estava bastante saturada no Youtube. Não contente com isso, o SBT resolveu realizar um Esquadrão da Moda com a estrela decadente (episódio em que a piauiense ficou famosa por confundir um signo zodiacal com estado). Os programas da Globo estão abusando na participação popular, pedindo para que o público que ainda atura sua grade defasada mande vídeos caseiros em diversas situações (Garagem do Faustão, Fantástico, Amor e Sexo... preciso continuar?). Mas tudo isso chega com muito atraso à TV e não significa o mesmo para aqueles que não acompanham a informação da mesma forma que nós, viciados assumidos em internet.

Quer dizer, incluir coisas do cotidiano da web é fail para quem já se encontra atualizado, acaba virando notícia old, last week (ou year, no caso do Twitter). E quem não faz questão ou não pode estar 24 horas conectado simplesmente pega os restos da notícia, aquilo que a TV decidiu mostrar porque percebeu que já faz sucesso em outro meio. A conclusão a que chego é de que a imprensa atual é feita de covardes, que necessitam da certeza de êxito da notícia para apostar nela. Profissionais que só exploram uma novidade quando ela já deixou de ser coisa nova. Crepúsculo, Fantástico? Saiba que os fãs dessa série já sofreram mitose espontânea em fóruns de discussão. Lady Gaga? A mulher já está em seu segundo CD, já causou horrores com suas roupas e participações em premiações (quem não se lembra de seu cosplay vela de macumba no VMA?) e só agora vocês dizem para seu público que ela é a nova Madonna? E antes de vocês dizerem que o Twitter era febre, os usuários frequentes de internet já haviam se habituado às baleiagens e isso já tinha virado gíria pra algo que dá errado. Aliás, muito antes de qualquer um noticiar a morte do Michael Jackson, a twitterlândia já o sabia; antes de vocês noticiarem o pouso de emergência do avião no Rio Hudson, os usuários da mesma ferramenta também estavam informados sobre o fato. Vocês estão atrasados, estão sempre correndo atrás da notícia que já é notícia. Não adianta dirigir Ferrari se você nasceu pra ser Rubinho.



Obs: o constante uso de gírias, principalmente em língua estrangeira, é parte da estitlística do texto. Use o recurso com moderação.

Uniban: ponto final

Eu poderia estar matando, eu poderia estar roubando, poderia estar no bate-papo UOL, poderia estar fazendo trabalho de Semiótica, poderia estar lendo livros para o TCC. Mas estou aqui, escrevendo sobre um assunto saturado. Por isso eu peço: créditos, meu povo. E perdão.


“Aluna é hostilizada em faculdade por ir à aula de vestido curto”. Esta é uma das manchetes mais rasas que eu li nos últimos dias, e isso, depois de uma enxurrada de matérias sobre o tal “apagão”, é alguma coisa. Acredito que qualquer brasileiro esteja mais que habituado a ver mulheres de minissaia todos os dias, certo? Nem os curitibanos, que vivem nessa cidade gelada por pelo menos três das quatro estações, fazem escândalo por verem uma moça de trajes mais ousados na rua. Então por que um monte de gente jovem, frequentadores de festas e pistas de dança, seria diferente? Sim, aqui também há quem vá à aula com vestidinho curto quando o calor permite. Diante disso, acho inocência demais dizer que a garota da história apenas colocou os pés dentro da faculdade e começou a ser ofendida. Então as manchetes, além de tudo, contêm certa dose de mentira. Qualquer um que estude orações subordinadas ou saiba interpretar uma (mesmo que inconsciente de que saiba) entendeu a relação de causa e efeito: a aluna foi hostilizada porque foi de vestido curto. Será que apenas eu desconfiei que havia mais do que um vestido rosa no meio?

Não, não acho que o fato dela ter desfilado pelos corredores ou erguido ainda mais a saia já curta justifique todo aquele circo que se armou, afinal ainda estamos falando de universitários (mesmo que sejam da Uniban rs), com idade suficiente para ignorar atitudes de uma garota necessitada de atenção. E ainda acho que ela tem todo o direito de ir com a roupa que quiser onde quiser. O que não é suficiente pra eu achar que ela estava certa, mas tudo bem. Comentando isso, de que vivemos em sociedade e que ela nos impõe certos tipos de condutas, me questionaram se eu hostilizaria alguém por ir de burca à praia caso sua religião a obrigasse, acusando meu tipo de mentalidade como responsável pelo que aconteceu à menina. Pra começar eu sequer ofenderia a garota do vestido rosa, depois que, nesse caso, não se trata de uma diferença cultural, e sim de falta de bom senso. Mas, se é pra fazer o trabalho bem feito, também quebro o argumento de tolerância à diversidade cultural: quem me perguntou isso aprova a mutilação sofrida por meninas de algumas tribos africanas? Isso também é diversidade cultural, o povo delas acredita que a mulher nasceu para gerar filhos, não para sentir prazer. Xeque.

O que mais me preocupa nesse caso, além da preguiça que a imprensa tem em mostrar as duas versões da história, é a tendência que as pessoas possuem em vomitar um discurso politicamente correto de tolerância sem analisar os fatos. Estamos com uma mania tão besta de defender qualquer minoria custe o que custar - inclusive nossa capacidade de raciocínio e análise - que criamos automaticamente toda uma argumentação em prol de qualquer injustiçado e nos esquecemos de que qualquer mínimo acontecimento possui mais de um ponto de vista. A pobre menina saiu aos berros de “puta”? Queimem os responsáveis na fogueira, as mulheres lutaram para que outras mulheres pudessem ser livres e fazer o que lhes dá na telha. Como mulher, eu fico muito ofendida que esses esforços, que conquistaram nosso direito ao voto, ao trabalho, a ter voz presente na sociedade, se resumam ao direito de sair mostrando a bunda dentro de uma instituição de ensino. Nenhuma mulher queimou seus sutiãs a troco disso. Sou contra nudez? Lógico que não. Quer tirar a roupa e ganhar dinheiro pra posar pra uma revista masculina? Fique à vontade, você está no seu direito. Mas saiba lidar com as consequências disso e admita que você o fez por dinheiro, não pelo intelecto (alguém ouviu Fernanda Young?); ou pra chamar a atenção mesmo, não porque as feministas lutaram pelo seu direito de usar seu corpo pra provocar estudantes. Seja honesta!

Agora o espetáculo já está armado: a faculdade já está com o nome (mais) sujo no círculo universitário e intelectual; alunos de outras faculdades que nada têm a ver com a confusão ficam nus como forma de protesto; a vítima está sendo assessorada por um séquito de seis ou sete advogados; a imprensa deu seu recado; as pessoas já podem dormir em paz porque estão indignadas diante de tal injustiça; muitos filósofos opinaram sobre o preconceito e o moralismo em cada um; os alunos da tal faculdade, palco desta palhaçada, foram rebaixados a vermes acéfalos. Enquanto isso, Geisy, que nada tem com isso, estampa uma das páginas do Ego porque mudou o visual e aplicou 70 cm de cabelo natural importado da Alemanha e estuda propostas para posar nua (ela deu uma entrevista dizendo que a mãe tinha desmaiado ao saber do ocorrido, será que ver a filhinha como capa de revista de marmanjo vai deixar ela mais alegrinha? Torço pra que sim). Geisy não tem motivo nenhum pra voltar pro seu cursinho de turismo, por enquanto lucra muito mais estando fora. Esperta.

Idiota é a faculdade que coroou a canonização de mais uma candidata a pseudo-celebridade expulsando a protagonista e voltando atrás em sua decisão. Imbecis somos nós que formamos plateia, que perdemos tempo lendo Ego, que gastamos alguns minutos defendendo ou atacando quaisquer que sejam os lados dessa história e não ganhamos nada com isso. O Brasil não aprende.

Vida de interior

Dedicado a:

Cauê e Bruno, companheiros de tragédias pessoais e que me cobravam esta postagem há bastante tempo.
Breno Pires, que está nos EUA, é leitor fiel e também vez ou outra me incentiva a continuar escrevendo mais do que ele imagina.


* * *


Já começo dizendo que não tenho absolutamente nada contra cidades pequenas, acho ótimo. Gosto é igual braço: insira aqui a piadinha politicamente incorreta de sua preferência (aliás, está aí outro ótimo tema: o politicamente correto acabando com o senso de humor desse país. Mas deixemos mais essa polêmica para outra hora). Mas ninguém pode negar que eu posso falar com propriedade sobre vantagens e desvantagens a que estamos sujeitos quando escolhemos (ou somos arrastados pelos pais a) morar em cidades menores.

Eu nasci em Umuarama, como algumas pessoas adoram me lembrar cada vez que eu falo alguma coisa de suas origens. Não que seja uma vergonha, veja bem. Enquanto eu era criança, me parecia o lugar perfeito: eu podia ficar o dia todo andando de bicicleta na rua e minha mãe nem surtava. Hoje a cidade já tem universidade, uma ótima estrutura para quem não suporta a violência urbana e todo aquele mimimi que minha mãe não se cansa de repetir cada vez que tenta me convencer de que eu seria mais feliz saindo de Curitiba. E, embora a cidade já represente um pólo educacional, ela não tem uma livraria! Não, sério. Não tem. Se um dia algum alienígena te abduzir e resolver te sacanear mandando seus restos para lá (só assim pra alguém parar naquela cidade rs), não se engane: o que eles chamam de livraria por lá nada mais é além de uma banquinha de revistas, no máximo uma papelaria. Os únicos livros que você encontrará são os do Augusto Cury, Paulo Coelho e Zíbia Gasparetto.

Uma vez, entediada que eu estava na casa da minha avó (falo desse lugar logo em seguida, não perdem por esperar) e aproveitando que meus parentes fariam uma visitinha à cidade (sim, Umuarama é o shopping das redondezas!), resolvi comprar o segundo volume de Senhor dos Anéis. Gente, vamos combinar, quer livro mais moda que esse? Não é nenhuma escritura sagrada trancafiada a sete chaves na Basílica de São Pedro. Mas vocês precisam ver a reação das pessoas quando eu entrava em alguma “livraria” e perguntava por este título. Era como se eu estivesse pedindo algo sobrenatural ou qualquer coisa da Stephenie Meyer (não que seja desconhecido, longe disso, mas é algo que eu não recomendo a ninguém). Era inacreditável que a prefeitura daquela cidade desse a alguém um alvará de funcionamento de uma livraria sendo que nos perímetros que a cercam não é possível comprar Senhor dos Anéis.

Falando em divertimento, deixa eu falar o que as pessoas na cidade das minhas avós¹ (e dos meus pais consequentemente) consideram divertido. O que você, jovem descolado e antenado ao mundo mainstream, faz para sair da rotina? Ok, concordo que para muitas pessoas shopping não representa significativamente sair da rotina, mas normalmente se vai ao cinema, ao McDonald’s, no Bob’s tomar aquele milk shake de Ovomaltine, parque e baladinhas (aliás, vamos nos atualizar, Word? ‘Tá cheio de sublinhado vermelho aqui! Esse programa não conhece palavras como “antenado”, “Milk shake” e “McDonalsd’s”, que horror!). Nem que seja pra ir ao Silvio Lanches²! Qualquer lanchonete ou barzinho serve para espairecer e conversar com os amigos. Bem, mas o povo daquela cidade não faz nada disso. O hype lá é se arrumar como se estivesse indo para a última balada da vida com o objetivo de acertar o maior número de alvos (note o eufemismo para pegar), tudo na maior curtição, como se não houvesse amanhã. Essa gente descoladíssima nem salão pra isso tem! O lugar do encontro da galera é a avenida principal (e única) da cidade, uma faixa de uns 200 metros de paralelepípedos onde o pessoal top estaciona os carros comprados com a venda da última colheita de algodão. O som fica por conta dos botecos bares, que espalham pela calçada mesas de metal (um oferecimento Kaiser, Skol ou qualquer uma dessas cervejas aí) e vendem mais que água no deserto, afinal essa é a única diversão de fim de ano dos nativos e de quem tem a infelicidade de passar as festas por lá.

Eu estou pouco ligando pra violência! Violência é ter que observar essa realidade triste e fingir que está gostando. Sim, porque sempre tem um pra convidar você pra dar uma passadinha lá e ver como a vida no interior pode ser tão badalada quanto na capital. Ê, trem bão! Daí você chega lá naquele antro de perdição e encontra pelo menos umas vinte pessoas que vão te encarar e soltar clichês como “você não é daqui, né?”, “você não é filha do fulano?”, “eu conheci sua mãe no ginásio”, “você não deve se lembrar de mim, mas minha avó foi professora da sua tia”. Ah, como me irrita essa mania de quem mora em cidade pequena querer conhecer todo mundo. Privacidade? Ela não pôde chegar até lá porque a estrada esburacada não permitiu. Noção? Bêbada, certamente fazendo questão de chamar atenção das cinco mesas em volta sem perceber que está sendo totalmente ignorada.

Não, essa vida não é pra mim. Você conhece melhor os vizinhos? Conhece, mas eles também conhecem você bem até demais. Você tem mais segurança para voltar para casa de madrugada? Sim, mas sair pra ficar desfilando de Scarpin rua acima e rua abaixo naquela calçada beirando 50 anos sem passar por uma reforma? Ah, mas sempre tem uma locadora pra alugar um filme. Pois eu juro pra você que o lançamento do momento deve ser Harry Potter e a Câmara Secreta. Ah, mas a cidade é quente e dá pra sair e tomar sorvete italiano, daqueles de máquina e sem gosto. Não, obrigada.




¹ Nome ocultado pela minha própria segurança. O povo de lá já não vai muito com a minha cara já que eu nunca fiz questão de esconder minha insatisfação com os fatos mencionados.
² Menção honrosa ao maior point de Barbacena, cidade do @brunoessm.

Sheldon, eu entendo você

Meu compromisso aqui, a princípio, era fazer pelo menos uma atualização semanal. Essa semana eu fiquei mais de dez dias sem postar, mas eu tenho um bom motivo: LOST. Sim, finalmente eu segui o conselho de 9 entre 10 amigos meus e vi toda a série. Agora que eu acabei, meus dias estão novamente sem propósito e posso voltar à programação normal. Além disso, sei que uma das minhas pautas futuras será séries em geral. Eu preciso comentar algumas coisas que tenho assistido e, claro, preciso falar de Lost e de como minha opinião foi completamente mudada, como se deu esse processo. Mas hoje não é este o assunto. Então, aos trabalhos.


* * *



Querida e amada Av. das Torres, obrigada.



Como se não bastassem ônibus lotados onde se observam coisas bizarras, os momentos de educação física constrangedores na escola e outras coisas mais, aqui vai mais um trauma. Sim, pois vocês não sabem como eu sofro. Pode parecer que eu estou pla
giando o último post do Breno, mas eu realmente tenho pensado em contar minha experiência como aspirante à motorista que eu não sou. O assunto me veio desde que minha irmã chegou em casa derrotada por ter reprovado no teste do DETRAN na parte prática. A coitada nem chegou a fazer o teste de rua porque bateu no protótipo em sua primeira tentativa de baliza. Mas, ao contrário de chegar amaldiçoando o mundo e colocando a culpa no seu avaliador, ela ria. Ria porque, antes de fazer o teste, foi ter aquela aulinha de revisão antes, aquela coisa que a gente chama de “estudar na hora da morte”. Treinou a tal baliza 5 vezes, não errou uma. O instrutor dela, então, disse que eles deveriam ir treinar a rua, pois ela tinha mais dificuldades lá. E ela errou a baliza.

A primeira frase que se lê no meu “
about me” do Orkut é uma que eu escutei no sitcom The Big Bang Theory, dita pelo Sheldon: I’m clearly too evolved for driving (eu sou muito evoluído para dirigir). Sim, esse negócio de embreagem, freio, marcha, acelerador, dá sinal pra esquerda, vira o volante duas vezes, sinal da direita não é pra mim, definitivamente. Eu não sei como alguém consegue raciocinar a 70 km/h sabendo que é você quem está controlando todo aquele trambolho de quatro rodas.

Eu juro que fui uma aluna muito dedicada na autoescola, estava até empolgada pra conseguir minha carteira de motorista e achava que me daria muito bem nisso. Eu era uma ótima aluna nas aulas teóricas, pegava o cronograma e estudava a matéria antes da aula, depois revisava em casa e tiravas notas ótimas nos simulados. Cheguei até a tirar um raríssimo 10 na prova de mecânica, um fato aparentemente inédito, principalmente se tratando de uma mulher. Sempre fui um pouco mais “masculina” do que minha mãe sonhou pra uma filha (gosto de futebol, computador, odeio andar o dia inteiro pra comprar 5 peças de roupas e sempre preferi me sujar de terra no quintal a brincar de casinha com as bonecas). A lógica me dizia que eu ia pegar num volante e sentir que nasci pr’aquilo. Talvez tenha sido essa minha ruína: não ser tão perfeita quando eu esperava ser. Mas eu estava muito longe de ser infalível. Na realidade eu fui uma catástrofe mesmo.


As provas iniciais foram ridiculamente fáceis pra mim. Na psicotécnica eu simplesmente me sentia subestimada, por favor. Aquilo insultava minha capacidade intelectual seriamente. E a teórica eu completei em contabilizados 18 minutos, fui a segunda a sair da sala de prova. Tudo certo, agora era só correr pro abraço e marcar a prática e... Nunca fiz a prática.


Sim, eu desisti de dirigir antes de tentar. Notei que a coisa não seria conforme o planejado desde a primeira curva que eu tive que fazer com o carro: eu não tinha
noção do quanto eu precisava virar o volante para não invadir a calçada em frente. Minha inteligência espacial simplesmente pulou essa lição, havia apenas o vazio onde deveria existir a capacidade de dirigir, sério. E depois ainda queriam que eu aprendesse a pisar no freio, na embreagem, trocar marcha. Tudo ao mesmo tempo. Há, há, há. Querido, eu não conseguia virar um volante nas primeiras aulas, imagina se eu ia automatizar esse ritual todo no meu cérebro. Daí chegou a tal Avenida das Torres (uma via rápida de Curitiba) e eu percebi nesse dia que nunca seria motorista quando o instrutor me falou, em cima da hora, enquanto eu estava a quase 70 km/h, que eu deveria pegar o retorno que estava a poucos metros de mim. Eu senti um desespero enorme em questão de segundos e prometi que, se saísse viva de lá, nunca mais sentaria no banco do motorista na vida.

Simplesmente não dá. Eu não consigo fazer parte da classe motorizada. Não é pra mim buzinar porque fulano lá na frente está dirigindo devagar, ou ouvir grosseria por estar dirigindo devagar e obedecendo às regras que todo motorista dotado de licença deveria ter aprendido na autoescola. Pra se ter noção, me xingaram quando eu estava em uma das minhas aulas de rua, dentro de um carro que é pintado justamente para deixar claro que a pessoa ali dentro está fazendo
AUTOESCOLA, ou seja, aprendendo. Se os ignorantes motoristas não têm este tipo de discernimento, então muito obrigada, mas eu não quero fazer parte desse clube. Sem contar que uma possível reprovação no teste prático seria simbolicamente um carimbo de “incapaz” bem no meio da minha testa e eu não estou preparada para lidar com isso. Até enquanto eu puder, continuo pegando Interbairros V lotado e vou torcendo para que minha irmã mais nova consiga passar em sua segunda tentativa e, futuramente, possa me dar uma carona.

Cuida que o filho é (a)teu


Warning:
Este post soará revoltado, depressivo e, para alguns, pode chegar a ser revoltante. Há grandes chances, também, de que ele seja longo. Certamente existe a possibilidade de você achar que eu preciso me tratar ou rezar. Ou ambos. Não duvido que a primeira alternativa tenha um fundo de razão. Da segunda, já desisti sem nunca ter tentado. Não conscientemente.
Considero ainda importante dizer que este espaço é um desafio pessoal. Eu sempre pretendi criar, através de coisas corriqueiras que observo e vivo, posts leves, agradáveis e, se possível, engraçados. Então peço desculpas a quem entra aqui procurando por isso. Juro que vou tentar não repetir o episódio, mas desta vez acredito que não haja muito do que rir. Mas como senso de humor é algo bastante subjetivo, fique a vontade se achar que deve.



* * *






Mesmo que o @brunoessm tenha me alertado, vou correr o risco de perder leitores antes mesmo de tê-los conquistado: não acredito em Deus. Pronto, falei. Tá aí ainda? Não me odeia? Não acha que eu preciso encontrar Jesus no meu coração, que eu sou uma alienada e que no dia do juízo final eu ficarei do lado de fora dos portões do paraíso com um olhar piduncho para os anjinhos recém-chegados no tempo do Senhor? Então continua comigo que eu explico.

Minha mãe tentou me fazer gostar de religião, coitada. Quando eu era criança, decorei todas as orações católicas existentes, rezava o Santo Anjo (do Senhor, não da Xuxa, hehehe), o Pai Nosso, a Ave Maria, Santa Maria, Creio em Deus Pai (é assim que se chama? rs) de cor. Aliás, só me deixaram ser transferida da igreja em que eu fazia catequese pra uma próxima da casa para a qual eu me mudei mais tarde por isso. O padre não levou muita fé em mim; eu disse alguma bobagem, mas sabia as orações todas. Ponto da minha mãe, não da igreja, veja bem. Aliás, o padre disse que eu seria reprovada e atropelada pelo ensino avançado de seus professores se fosse estudar lá. Muito doutrinador e cristão ele. Se Deus ensinou ele a falar assim, nem quero ver do que o Diabo é capaz. Fuck him, ele não seria meu professor mesmo. Eu só era obrigada a ir às missas que ele ministrava todos os domingos depositar meu nome na caixinha de presença dos catequisandos ou eu reprovaria. Sim, as presenças nas missas eram contabilizadas, quase reprovo (quem duvida que reprovar na igreja é possível, pergunte à minha irmã, sem brinks).

Completei a catequese, fiz a confissão (única e última da minha vida, obrigada), tomei comunhão e fui fazer crisma (sem confessar de novo, faço questão de frizar) porque fui igualmente obrigada. Eles não dariam meu “diploma” de primeira comunhão se eu não fizesse. Isso me parece até engraçado hoje, sabe. Como assim? Diploma? Cristianismo e catolicismo agora precisam ser provados por autorização do padre, Deus não vê nada disso, oook. Mas não, não foi nada disso que fez de mim uma ovelha perdida do rebanho, mesmo que eu considere tudo suficiente pra desistir de uma instituição cheia dessas falhas.

Eu nunca ouvi o chamado, aquela chama que acende no coração e diz maravilhoso, conselheiro, Deus forte, Pai da eternidade e Príncipe da paaaaaaaaaz. Isso tudo nunca fez sentido, eu ia aos meus estudos religiosos porque era um requisito social e obrigação na condição de filha em que eu me encontrava. Duvida? Experimente dizer no meio de um grupo de pessoas que você não tem religião ou não acredita em Deus pra ver. Todos passarão a olhar você com pena na melhor das hipóteses e tentarão exorcizá-lo na pior.

Quanto mais eu estudava, menos eu me identificava com esse universo. Quanto mais eu sei e vivo, mais certeza eu tenho de que estamos por nossa própria conta e risco. Só para exemplificar, chegou até mim o relato sobre um garoto de 20 anos que descobriu ter um tipo de câncer. A doença se alojou em sua espinha dorsal, comprimindo a coluna e, em poucos meses, ele estava em uma cadeira de rodas, definhando, apenas esperando a morte. Foi-lhe dada apenas a opção de esperar por ela em casa ou no hospital. Então, no enterro, chegarão aquelas beatas conformadas dizendo que “agora ele descansou”, “foi melhor pra ele”. Melhor pra quem? Descansar de que? Um garoto aos 20 anos de idade não está cansado de nada, ele tem sonhos, ele quer realizá-los. Não consigo encontrar um lado bom disso e nem ver nenhuma mensagem divina ali. Perguntassem a esse garoto o que ele queria e ele certamente responderia que gostaria de terminar a faculdade, ter uma namorada, casa e filhos. Então não me venham dizer que Deus escreve certo por linhas tortas se eu não consigo enxergar o que isto tem de certo. Isso é triste, trágico e lamentável. Esse garoto certamente não merecia nada disso.

Isso não me revolta no lado espiritual da coisa, pois, como eu disse, nunca fiz questão de acreditar em nada dessa conversa. O que fatos assim me dizem é que somos seres biológicos, sujeitos a esse tipo de mal. Isso é natural. Eu fico muito mais conformada sabendo disso do que tentando encontrar uma explicação divina ou um conforto na Bíblia. Se eu acreditar que Deus realmente existe e é responsável por esse tipo de coisa, teria que odiá-Lo. Prefiro chamar de “sorte” ou “azar”.

Outro argumento para que ninguém pense que eu me apego a desgraças para negar a Deus? Pra mim, religião é algo criado pelo homem para explicar coisas que sua racionalidade privilegiada não é capaz de compreender sozinha. Cai um raio e queima uma árvore, é Caramuru e pronto. O mar está agitado, os navios afundam, é culpa de Poseidon/Netuno. Eu sei que religião não é racional e não é possível contestá-la com razões científicas, afinal fé não se explica. Mas será que dá pra entender o meu ponto de vista? Os povos antigos tinham uma fé em vários deuses, cada um designado a uma desgraça diferente, mas isso tudo é hoje visto como mito e tem caráter muito mais folclórico (e, olha, muito mais interessante que criar um único deus barbudo que fica sentado nas nuvens olhando tudo, heim). Aliás, isso acontece ainda hoje. Quantas religiões e deuses existem hoje? Cada um tem o seu, então eu chego à conclusão de que alguém TEM que estar errado, ou existem também vários céus e infernos, cada um designado a quem leu (ou não) um livro sagrado diferente. Quer dizer que também existe burocracia entre os deuses? Seria engraçado, né. Você morre, chega num lugar com vários guichês e pega uma senha. Depois de horas esperando ela andar (santos têm atendimento preferencial), é recebido por um funcionário mal humorado que diz:

- Senhora, a senhora está na fila errada. Esta aqui é a fila dos budistas, a fila dos católicos fica ali ao lado da fila dos islâmicos.

Não dá, não me entra na cabeça esse tipo de coisa. Somos animais, talvez favorecidos por poder raciocinar e, consequentemente, filosofar. Então, sem encontrar uma razão para o trovão e a chuva, inventamos entidades que cumprem sua função de preencher essa lacuna existencial. E o mundo se apega a isso porque simplesmente é incapaz de viver consciente de que é mais um tipo de vida no planeta.

Eu posso estar cometendo uma heresia para alguns, mas tudo o que eu pensei até hoje me trouxe a este presente. E se Deus existe mesmo, Ele vier me pedir satisfações e eu tiver que prestar contas do meu ceticismo, falo sem hesitar: pois eu Lhe digo que pai é quem cria, não quem coloca no mundo. Se não podia ser responsável por todos, por que jogou tantos deles aqui?

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