Cuida que o filho é (a)teu


Warning:
Este post soará revoltado, depressivo e, para alguns, pode chegar a ser revoltante. Há grandes chances, também, de que ele seja longo. Certamente existe a possibilidade de você achar que eu preciso me tratar ou rezar. Ou ambos. Não duvido que a primeira alternativa tenha um fundo de razão. Da segunda, já desisti sem nunca ter tentado. Não conscientemente.
Considero ainda importante dizer que este espaço é um desafio pessoal. Eu sempre pretendi criar, através de coisas corriqueiras que observo e vivo, posts leves, agradáveis e, se possível, engraçados. Então peço desculpas a quem entra aqui procurando por isso. Juro que vou tentar não repetir o episódio, mas desta vez acredito que não haja muito do que rir. Mas como senso de humor é algo bastante subjetivo, fique a vontade se achar que deve.



* * *






Mesmo que o @brunoessm tenha me alertado, vou correr o risco de perder leitores antes mesmo de tê-los conquistado: não acredito em Deus. Pronto, falei. Tá aí ainda? Não me odeia? Não acha que eu preciso encontrar Jesus no meu coração, que eu sou uma alienada e que no dia do juízo final eu ficarei do lado de fora dos portões do paraíso com um olhar piduncho para os anjinhos recém-chegados no tempo do Senhor? Então continua comigo que eu explico.

Minha mãe tentou me fazer gostar de religião, coitada. Quando eu era criança, decorei todas as orações católicas existentes, rezava o Santo Anjo (do Senhor, não da Xuxa, hehehe), o Pai Nosso, a Ave Maria, Santa Maria, Creio em Deus Pai (é assim que se chama? rs) de cor. Aliás, só me deixaram ser transferida da igreja em que eu fazia catequese pra uma próxima da casa para a qual eu me mudei mais tarde por isso. O padre não levou muita fé em mim; eu disse alguma bobagem, mas sabia as orações todas. Ponto da minha mãe, não da igreja, veja bem. Aliás, o padre disse que eu seria reprovada e atropelada pelo ensino avançado de seus professores se fosse estudar lá. Muito doutrinador e cristão ele. Se Deus ensinou ele a falar assim, nem quero ver do que o Diabo é capaz. Fuck him, ele não seria meu professor mesmo. Eu só era obrigada a ir às missas que ele ministrava todos os domingos depositar meu nome na caixinha de presença dos catequisandos ou eu reprovaria. Sim, as presenças nas missas eram contabilizadas, quase reprovo (quem duvida que reprovar na igreja é possível, pergunte à minha irmã, sem brinks).

Completei a catequese, fiz a confissão (única e última da minha vida, obrigada), tomei comunhão e fui fazer crisma (sem confessar de novo, faço questão de frizar) porque fui igualmente obrigada. Eles não dariam meu “diploma” de primeira comunhão se eu não fizesse. Isso me parece até engraçado hoje, sabe. Como assim? Diploma? Cristianismo e catolicismo agora precisam ser provados por autorização do padre, Deus não vê nada disso, oook. Mas não, não foi nada disso que fez de mim uma ovelha perdida do rebanho, mesmo que eu considere tudo suficiente pra desistir de uma instituição cheia dessas falhas.

Eu nunca ouvi o chamado, aquela chama que acende no coração e diz maravilhoso, conselheiro, Deus forte, Pai da eternidade e Príncipe da paaaaaaaaaz. Isso tudo nunca fez sentido, eu ia aos meus estudos religiosos porque era um requisito social e obrigação na condição de filha em que eu me encontrava. Duvida? Experimente dizer no meio de um grupo de pessoas que você não tem religião ou não acredita em Deus pra ver. Todos passarão a olhar você com pena na melhor das hipóteses e tentarão exorcizá-lo na pior.

Quanto mais eu estudava, menos eu me identificava com esse universo. Quanto mais eu sei e vivo, mais certeza eu tenho de que estamos por nossa própria conta e risco. Só para exemplificar, chegou até mim o relato sobre um garoto de 20 anos que descobriu ter um tipo de câncer. A doença se alojou em sua espinha dorsal, comprimindo a coluna e, em poucos meses, ele estava em uma cadeira de rodas, definhando, apenas esperando a morte. Foi-lhe dada apenas a opção de esperar por ela em casa ou no hospital. Então, no enterro, chegarão aquelas beatas conformadas dizendo que “agora ele descansou”, “foi melhor pra ele”. Melhor pra quem? Descansar de que? Um garoto aos 20 anos de idade não está cansado de nada, ele tem sonhos, ele quer realizá-los. Não consigo encontrar um lado bom disso e nem ver nenhuma mensagem divina ali. Perguntassem a esse garoto o que ele queria e ele certamente responderia que gostaria de terminar a faculdade, ter uma namorada, casa e filhos. Então não me venham dizer que Deus escreve certo por linhas tortas se eu não consigo enxergar o que isto tem de certo. Isso é triste, trágico e lamentável. Esse garoto certamente não merecia nada disso.

Isso não me revolta no lado espiritual da coisa, pois, como eu disse, nunca fiz questão de acreditar em nada dessa conversa. O que fatos assim me dizem é que somos seres biológicos, sujeitos a esse tipo de mal. Isso é natural. Eu fico muito mais conformada sabendo disso do que tentando encontrar uma explicação divina ou um conforto na Bíblia. Se eu acreditar que Deus realmente existe e é responsável por esse tipo de coisa, teria que odiá-Lo. Prefiro chamar de “sorte” ou “azar”.

Outro argumento para que ninguém pense que eu me apego a desgraças para negar a Deus? Pra mim, religião é algo criado pelo homem para explicar coisas que sua racionalidade privilegiada não é capaz de compreender sozinha. Cai um raio e queima uma árvore, é Caramuru e pronto. O mar está agitado, os navios afundam, é culpa de Poseidon/Netuno. Eu sei que religião não é racional e não é possível contestá-la com razões científicas, afinal fé não se explica. Mas será que dá pra entender o meu ponto de vista? Os povos antigos tinham uma fé em vários deuses, cada um designado a uma desgraça diferente, mas isso tudo é hoje visto como mito e tem caráter muito mais folclórico (e, olha, muito mais interessante que criar um único deus barbudo que fica sentado nas nuvens olhando tudo, heim). Aliás, isso acontece ainda hoje. Quantas religiões e deuses existem hoje? Cada um tem o seu, então eu chego à conclusão de que alguém TEM que estar errado, ou existem também vários céus e infernos, cada um designado a quem leu (ou não) um livro sagrado diferente. Quer dizer que também existe burocracia entre os deuses? Seria engraçado, né. Você morre, chega num lugar com vários guichês e pega uma senha. Depois de horas esperando ela andar (santos têm atendimento preferencial), é recebido por um funcionário mal humorado que diz:

- Senhora, a senhora está na fila errada. Esta aqui é a fila dos budistas, a fila dos católicos fica ali ao lado da fila dos islâmicos.

Não dá, não me entra na cabeça esse tipo de coisa. Somos animais, talvez favorecidos por poder raciocinar e, consequentemente, filosofar. Então, sem encontrar uma razão para o trovão e a chuva, inventamos entidades que cumprem sua função de preencher essa lacuna existencial. E o mundo se apega a isso porque simplesmente é incapaz de viver consciente de que é mais um tipo de vida no planeta.

Eu posso estar cometendo uma heresia para alguns, mas tudo o que eu pensei até hoje me trouxe a este presente. E se Deus existe mesmo, Ele vier me pedir satisfações e eu tiver que prestar contas do meu ceticismo, falo sem hesitar: pois eu Lhe digo que pai é quem cria, não quem coloca no mundo. Se não podia ser responsável por todos, por que jogou tantos deles aqui?

14 comentários:

Bruno disse...
7 de outubro de 2009 21:54

Nossa, que twitter top que você citou *¬*

GENTE, ESSA FRASE FINAL ARREPIOU. *anotando para o meu futuro stand-up*

Nanda disse...
8 de outubro de 2009 07:34

Só avisando pro Bruno aí de cima que em stand-up comedy não se pode copiar as piadas de outrem, viu? Hahaha

Mas esse texto ficou esplêndido, muito muito bom. Sofro do mesmo mal que você, já fiz minha avó chorar por isso, coitada.

Vou até pegar um gancho na sua postagem pra falar sobre o fato de ter escolhido não batizar Benjamin.

Ah, quando eu era pequena também sabia rezar tudim. Até o Credo (que você chama de Creio em deus pai porque afinal, todo nome de reza é a primeira frase, mas o nome é Credo, haha). Mas desde pequena eu lembro de ficar olhando para uma planta e pensando "se deus existe, faz essa planta se mexer", e a planta não mexia, e eu ficava encasquetada. Minha avó dizia que ter fé era não precisar de provas, e oi, isso é impossível para uma criança. Exige um nível de *cof*alienação*cof* abstração que eu ainda não consegui atingir. Daí eu pensava exatamente isso. Que cada pessoa ia para o lugar onde acreditava que ia. Agora eu sei que todos vão é devolver seus minerais pra terra, bando de ingratos.

fridanopaisdasmaravilhas disse...
8 de outubro de 2009 07:52

Esse seu post me levou lágrimas aos olhos, pois é tudo o que eu penso mas não tenho coragem de falar.

Salem disse...
8 de outubro de 2009 08:15

Texto enorme... acabou com minha espiritualidade...

Bruno disse...
8 de outubro de 2009 12:20

Nanda, eu vou falar que ouvi num churrasco.

Breno Ribeiro disse...
8 de outubro de 2009 18:30

Eu acredito em algo, não necessariamente Deus, mas acredito muito menos em religião. Pra mim é a coisa mais alienadora que existe, a religião, seja ela qual for. A pessoa pode até se sentir bem com ela, mas é alienador do mesmo jeito

Bruno Marques disse...
8 de outubro de 2009 19:31

Vem fazer História, Érika!!

Devo admitir que já me acostumei com um círculo social bem laicizado. E eu também nunca me conformei com as desculpas religiosas pros meus questionamentos, principalmente quando eu perguntava sobre os males do mundo e me respondiam que "Deus trabalha de maneira misteriosa".

Então stand up por stand up, eu fico com o australiano que eu até esqueci o nome. Ele dizia que, adatpando pra nossa realidade, num país "laico" que imprime notas com "Deus é fiel", qualquer tribunal deveria aceitar "Eu trabalho de maneira misteriosa" como defesa perfeita pra genocídios e assassinatos em geral.

Anônimo disse...
8 de outubro de 2009 20:08

Eu já disse. O coisaruim tá falando através da Érika NAUM OUVAM ELA!

Anônimo disse...
9 de outubro de 2009 08:09

Esse OUVAM aí de cima doeu...

Mila Linhares disse...
9 de outubro de 2009 20:01

Eu amo ouvir a opiniçao de pessoas que não acreditam em Deus, sério...Gosto de tentar entender, mesmo que eu acredite e seja católica praticante. Respeito muito a opinião das outras pessoas e achei muito legal a forma como você colocou a seu ponto de vista! =*

Paulo Sérgio disse...
10 de outubro de 2009 08:20

Eujá fui muito religioso [evangélico]e, francamente, me arrependo de ter perdido o meu tempo acreditando nas pessoas, pois são elas que tentam implantar um deus em nossas mentes. Hoje não vou dizer que sou ateu, creio em alguma coisa, principalmtente quando fatos inexplicáveis acontecem. A Natureza, para mim, é a Deusa-mor, acredito que azar, sorte e destino são repartições ligados a ela. Contudo, como você mesmo disse, acreditar em um deus só porque uma determinada questão parece ser impossível de ser respondida não me soa bem. Agora, fracamente, não acho que coisas boas, bem como as ruins são obras provenientes de um ser superior.Para mim, tudo é resultado da escolha do ser humano, por isso, sempre que escuto alguém dizer que terremotos, tsunamis etc. são castigos de uma ordem superior, pergunto-me quem será esse animal racional responsável por presidir tudo isso.

au disse...
13 de outubro de 2009 10:59

muito, muito bom!
eu ainda sou indecisa. meu pai é ateu e minha mãe é católica não praticante. as vezes vejo minha vó rezando pelo meu tio, pq é meio louco. e tipo, ela não é daquelas fervorosas que só falam de Deus, mas ela gasta rios de dinheiro com santos, indo em novenas lááá do outro lado do estado, fazendo rezas na casa dela, passando o dia em igrejas de outras cidades. e meu tio nunca apresentou nenhum sinal de melhora. :T

v. disse...
18 de outubro de 2009 15:40

Só li hoje, peço perdão. :x

Ótimo texto. Acho difícil discordar de alguma coisa, tão boa é a argumentação. Parabéns (e trate de voltar a postar)!

Aliás, esse seu texto me motivou a voltar a escrever. Tentarei algo mais tarde. :-)

Lay disse...
22 de outubro de 2009 08:28

Eu acho o contrário. Acredito que a fé é sim algo racional. Só que vai levar muito tempo aqui para eu provar meu ponto de vista. E também não acredito que religião possa salvar alguém, afinal, é algo criado pelos homens. Eu mesmo tenho a minha (sou evangélica), mas não a venero, nem sou fanática. Acredito sim em Deus e que o único jeito de se chegar a ele é a através do seu Filho, Jesus. Nada de santos ou intermediários.
Acho meio hipócrita a posição daquele fiéis que vão às igrejas, ouvem os que os padres, pastores, whoever e cristalizam aquilo com A VERDADE. Não conseguem simplesmente analisar o que estão ouvindo, para ver se concordam ou não. Ou até mesmo aqueles que se julgam super santos, super religiosos e não leram a Bíblia uma vez sequer. Depois pregam que você tem que acreditar na Bíblia, quando nem eles sabem o que está escrito lá.

Back to Home Back to Top Insira Aqui Um Título. Theme ligneous by pure-essence.net. Bloggerized by Chica Blogger.