Vida de interior

Dedicado a:

Cauê e Bruno, companheiros de tragédias pessoais e que me cobravam esta postagem há bastante tempo.
Breno Pires, que está nos EUA, é leitor fiel e também vez ou outra me incentiva a continuar escrevendo mais do que ele imagina.


* * *


Já começo dizendo que não tenho absolutamente nada contra cidades pequenas, acho ótimo. Gosto é igual braço: insira aqui a piadinha politicamente incorreta de sua preferência (aliás, está aí outro ótimo tema: o politicamente correto acabando com o senso de humor desse país. Mas deixemos mais essa polêmica para outra hora). Mas ninguém pode negar que eu posso falar com propriedade sobre vantagens e desvantagens a que estamos sujeitos quando escolhemos (ou somos arrastados pelos pais a) morar em cidades menores.

Eu nasci em Umuarama, como algumas pessoas adoram me lembrar cada vez que eu falo alguma coisa de suas origens. Não que seja uma vergonha, veja bem. Enquanto eu era criança, me parecia o lugar perfeito: eu podia ficar o dia todo andando de bicicleta na rua e minha mãe nem surtava. Hoje a cidade já tem universidade, uma ótima estrutura para quem não suporta a violência urbana e todo aquele mimimi que minha mãe não se cansa de repetir cada vez que tenta me convencer de que eu seria mais feliz saindo de Curitiba. E, embora a cidade já represente um pólo educacional, ela não tem uma livraria! Não, sério. Não tem. Se um dia algum alienígena te abduzir e resolver te sacanear mandando seus restos para lá (só assim pra alguém parar naquela cidade rs), não se engane: o que eles chamam de livraria por lá nada mais é além de uma banquinha de revistas, no máximo uma papelaria. Os únicos livros que você encontrará são os do Augusto Cury, Paulo Coelho e Zíbia Gasparetto.

Uma vez, entediada que eu estava na casa da minha avó (falo desse lugar logo em seguida, não perdem por esperar) e aproveitando que meus parentes fariam uma visitinha à cidade (sim, Umuarama é o shopping das redondezas!), resolvi comprar o segundo volume de Senhor dos Anéis. Gente, vamos combinar, quer livro mais moda que esse? Não é nenhuma escritura sagrada trancafiada a sete chaves na Basílica de São Pedro. Mas vocês precisam ver a reação das pessoas quando eu entrava em alguma “livraria” e perguntava por este título. Era como se eu estivesse pedindo algo sobrenatural ou qualquer coisa da Stephenie Meyer (não que seja desconhecido, longe disso, mas é algo que eu não recomendo a ninguém). Era inacreditável que a prefeitura daquela cidade desse a alguém um alvará de funcionamento de uma livraria sendo que nos perímetros que a cercam não é possível comprar Senhor dos Anéis.

Falando em divertimento, deixa eu falar o que as pessoas na cidade das minhas avós¹ (e dos meus pais consequentemente) consideram divertido. O que você, jovem descolado e antenado ao mundo mainstream, faz para sair da rotina? Ok, concordo que para muitas pessoas shopping não representa significativamente sair da rotina, mas normalmente se vai ao cinema, ao McDonald’s, no Bob’s tomar aquele milk shake de Ovomaltine, parque e baladinhas (aliás, vamos nos atualizar, Word? ‘Tá cheio de sublinhado vermelho aqui! Esse programa não conhece palavras como “antenado”, “Milk shake” e “McDonalsd’s”, que horror!). Nem que seja pra ir ao Silvio Lanches²! Qualquer lanchonete ou barzinho serve para espairecer e conversar com os amigos. Bem, mas o povo daquela cidade não faz nada disso. O hype lá é se arrumar como se estivesse indo para a última balada da vida com o objetivo de acertar o maior número de alvos (note o eufemismo para pegar), tudo na maior curtição, como se não houvesse amanhã. Essa gente descoladíssima nem salão pra isso tem! O lugar do encontro da galera é a avenida principal (e única) da cidade, uma faixa de uns 200 metros de paralelepípedos onde o pessoal top estaciona os carros comprados com a venda da última colheita de algodão. O som fica por conta dos botecos bares, que espalham pela calçada mesas de metal (um oferecimento Kaiser, Skol ou qualquer uma dessas cervejas aí) e vendem mais que água no deserto, afinal essa é a única diversão de fim de ano dos nativos e de quem tem a infelicidade de passar as festas por lá.

Eu estou pouco ligando pra violência! Violência é ter que observar essa realidade triste e fingir que está gostando. Sim, porque sempre tem um pra convidar você pra dar uma passadinha lá e ver como a vida no interior pode ser tão badalada quanto na capital. Ê, trem bão! Daí você chega lá naquele antro de perdição e encontra pelo menos umas vinte pessoas que vão te encarar e soltar clichês como “você não é daqui, né?”, “você não é filha do fulano?”, “eu conheci sua mãe no ginásio”, “você não deve se lembrar de mim, mas minha avó foi professora da sua tia”. Ah, como me irrita essa mania de quem mora em cidade pequena querer conhecer todo mundo. Privacidade? Ela não pôde chegar até lá porque a estrada esburacada não permitiu. Noção? Bêbada, certamente fazendo questão de chamar atenção das cinco mesas em volta sem perceber que está sendo totalmente ignorada.

Não, essa vida não é pra mim. Você conhece melhor os vizinhos? Conhece, mas eles também conhecem você bem até demais. Você tem mais segurança para voltar para casa de madrugada? Sim, mas sair pra ficar desfilando de Scarpin rua acima e rua abaixo naquela calçada beirando 50 anos sem passar por uma reforma? Ah, mas sempre tem uma locadora pra alugar um filme. Pois eu juro pra você que o lançamento do momento deve ser Harry Potter e a Câmara Secreta. Ah, mas a cidade é quente e dá pra sair e tomar sorvete italiano, daqueles de máquina e sem gosto. Não, obrigada.




¹ Nome ocultado pela minha própria segurança. O povo de lá já não vai muito com a minha cara já que eu nunca fiz questão de esconder minha insatisfação com os fatos mencionados.
² Menção honrosa ao maior point de Barbacena, cidade do @brunoessm.

10 comentários:

Afonso disse...
5 de novembro de 2009 09:28

Guardadas as devidas diferenças nordeste-sul, aqui também é parecido.

Quando era pequeno, ia pra cidade da minha vó em época de festejos, onde a cidade parava pra ir pra praça da igreja bater perna e olhar gente. hahaha

Com direito a mesa de Skol e tudo mais.

Mas era até legal, à noite todo mundo colocava as cadeiras na calçada pra ficar olhando quem passava, e todos se conheciam e se cumprimentavam.

Fora que aqui o costume é: Fulano é filho do finado Beltrano, afilhadao da finada Cicrana.
hahaha

Muito bom, o texto.

Drake on Ice disse...
5 de novembro de 2009 12:24

Pra mim isso se chama Ponte Nova
A mesma coisa, so que o meu pra completar toda vez que vou (ou aquele bando de alejado hipocrita que eu chamo de familia resolve ir pra capital)ainda viro comentario da familia, as vezes comentarios bons (super raros) e em 99.9% das vezes mau.
Nao aguento cidade pequena, pra ir ficar um final de semana e voltar é ate suportavel, mais pra morar nem rola

Adorei o texto, principalmente a parte com o meu nome xD

F@bielle disse...
5 de novembro de 2009 16:18

HAHAHAHAHAHAHAHAHA.

Cidade pequena é um lixo! Já odeio a minha, e olha que tem livraria, shopping e mais de duas baladinhas, beleza que só gente bêbada e maloqueira vai,mas...

Ah, ótimo texto. *-*

Bruno disse...
5 de novembro de 2009 19:11

Depois dizem que a minha vida é facil :'( VOCÊS NÃO SABEM COMO É DIFICIL ACORDAR ÀS 6 PARA TIRAR LEITE DAS VACA, alimentar os porco, dar milho pras galinha. :(

Mas sério, prefiro um x-tudo do Silvio Lanches do que Mac Lanche Feliz. O foda é que só fica aberto das 6 da tarde até a meia-noite hehehe.

A grande desvantagem do interior é não ter um cinema bom pra ir e um bobs pra comprar ovomatine =(

É isso. Valeu pela segunda citação. Chupa essa, cauê.

Mila Linhares disse...
8 de novembro de 2009 07:38

Eu entendo bem o que é isso...Fui obrigada quase a minha infância toda a passar as férias na cidade dos meus avós por parte de mãe ou na fazenda do meu avô por parte de pai (sim, Bruno, eu sei o que é acordar seis da manhã pra dar comida pras galnhas! tenho vídios disso =/)
Cidades paradas, sem nada pra fazer me dão agoniaaaa ='(

ewfwerf disse...
10 de novembro de 2009 14:42
Este comentário foi removido pelo autor.
ewfwerf disse...
10 de novembro de 2009 14:46

Amei o post como sempre, old rs. E digo aqui que viver na cidade grande é a melhor coisa que há.

Você tem acesso a tudo. Na hora que quiser.

E nunca que eu trocaria um delicioso e industrializado hámburguer do Mc por um lanche com sujeira da unha do Sílvio Lanches.

E Bruno, eu fui citado primeiro lá em cima. Bjks

E sei lá pporque meu nome tá assim. Mas, ok, sou eu Cauê.

Bruno disse...
19 de novembro de 2009 17:50

Retardado.

Eu fui linkado 2 vezes. Você foi apenas citado.

Layanna Maiara disse...
27 de novembro de 2009 00:00

"Os únicos livros que você encontrará são os do Augusto Cury, Paulo Coelho e Zíbia Gasparetto." Oh, no!

Nasci numa capital que meio que parece cidade de interior (Teresina). Quero dizer, a estrutura é de cidade de porte médio, mas a mentalidade das pessoas é de vilarejo. Isso sim é triste. Mas eu amo minha cidade. Não tem jeito.

Anônimo disse...
19 de fevereiro de 2010 02:39

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