Saudades da aurora da vida

Tenho plena consciência de que este post não é o melhor texto que eu já escrevi, mas já tinha começado ele há algum tempo e queria terminar. Junta-se isso à minha vontade de postar algo e temos o que se segue. Vocês foram avisados.

Sim, sou eu na foto ao lado comendo o cabo de uma margarida.
Não, a foto não é tão velha. Eu não sou tão velha.

* * *


Eu não quero viver muito. Sério. O problema de você viver muito é que você fica velho. Sério.


Nada contra os idosos, imagina. Eu tenho somente minhas duas avós ainda, respeito muito elas. Até pouco tempo atrás, considerava a casa da minha avó paterna a minha segunda casa. Era o lugar mais divertido do mundo, onde eu fazia o que queria, desde ficar o dia inteiro cavando a terra até juntar uma pilha de lixo pra fazer uma fogueira imponente e alta o suficiente pra exasperar minha pobre mãe (ela tinha domínio de mim em casa, mas na casa da vó...).

Mas eu não quero ficar velha.

Eu não quero ficar velha pela possibilidade que existe da tecnologia ultrapassar minha capacidade de assimilação de novidades. Eu já fui humilhada por uma máquina de café na faculdade, imagina um caixa de banco super moderno! Porque eu sei que, no fundo, todo mundo fica possuído de raiva quando está com pressa de efetuar um pagamento ou um saque e aquela senhorinha de coque e casaquinho de tricô demora 20 minutos pra tirar um extrato da aposentadoria. Não tem como não se irritar, desculpa aí quem simpatiza com os velhinhos.

Também aprecio minha capacidade de subir e descer degraus de um ônibus sem o medo de me estabacar. Ok, quando eu estiver idosa espero não precisar mais pegar ônibus (estarei rica e terei motorista ), mas mesmo assim... Sempre tem um degrau na vida da gente. Pra mim é uma sina.

Sinto calafrios quando penso em mim andando no centro da cidade com mais de 60 anos. Aqueles passinhos de formiga, pacientes, como se só existisse você na calçada. Uma amiga e eu já prometemos que vamos ajudar a criar a lei que obriga pessoas lentas a andarem apenas do lado direito da calçada, assim como no trânsito. Quer andar com calma? Anda, mas fica no cantinho pros outros poderem ultrapassar.

Mas pior que tudo isso é a memória. Minha querida avó materna, que hoje está com 92 anos, já não sabe mais quem é filho, neto, sobrinho, quem mora com ela e quem mora longe. Todo fim de ano alguém vai embora da casa dela chateado porque foi confundido com outro membro da família. Minha mãe ela chama de “aquela menina ali”, minha irmã então... A estratégia é chegar com um sonoro “oi, , tudo bem?”, dando a ela tempo de assimilar que a criatura que a abraça tem com ela laços sanguíneos. Nome de neto? Vishi... Tem que ser agradecido aquele que não precisa ouvir “e esse aí, é o filho da fulana?” (troque fulana por qualquer uma das minhas tias Marias¹, menos o da mãe certa). Ela não sabe mais quem é irmão de quem, quem é primo de quem e por aí vai.

Fora que, devido à progressiva baixa de natalidade no país, a previdência um dia vai quebrar. Serei uma idosa a menos dando despesas ao governo, abrindo espaço para que os jovens, cheios de vigor e saúde possam usufruir do seu tempo.

Para a mente bem estruturada, a morte é apenas a aventura seguinte, já dizia Dumbledore. E vamos que vamos.


¹ Das 7 filhas da minha avó - que tem mais 3 homens -, 6 têm Maria no primeiro nome. A única que foge à exceção não teve filhos. Nem dá pra culpar ela por não se lembrar de todas, né?

11 comentários:

Zirpoli disse...
10 de janeiro de 2010 13:59

Se tem um negócio que eu sempre tive ciência é de que não vou ficar velho. A não ser que inventem algo diferente pra gente continuar inteirão. Não to preparado, nem pretendo estar, pra ver tudo caindo não, obrigado.

Se eu chegar aos 50 será muito. Queria mesmo era com 47. Acho um máximo. E quero ser cremado, tsá? Quero ficar além de velho PODRE, por favor.

live fast, die young. Já diziam...

Zirpoli disse...
10 de janeiro de 2010 14:03

Esqueci de dizer que amei a foto! ahhahahaha AMOUR!

E ali era pra eu ter escrito depois de PODRE: *não, por favor.

E um dia conhecerei sua avó. E aí ela sempre lembrará de mim e você e seus primos morrerão de inveja. q

Maria Clara disse...
10 de janeiro de 2010 14:04

Olha, Érika, também tenho um pouco desse medo. Gostaria de ser ao menos uma idosa saudável e independente dos outros. Mas, vendo pelas minhas duas avós, sei que há certa dificuldade em conseguir isso. Uma se tornou extremamente rabugenta; a outra, conta sempre as mesmas histórias 3x em 5 minutos quando a visito.

Devo dizer que parei de visitá-las porque sempre volto triste e pensativa.

E a foto ficou muito bonitinha (:

Marcela disse...
10 de janeiro de 2010 14:52

Nuss, nem a pau, Juvenal. Também não tenho muita paciência com velhinhos em filas não, mas eu quero ser velhinha. *-*

Quero ter uma renca de netos, todo mundo me chamando de vovó, me pedindo pra fazer bolo, pra ler livrinhos... *-* E, é claro, quero ter um marido que fique velhinho comigo e ande de mãozinhas dadas por aí (Vovô Souza, dizaê q). *-*

Emily disse...
10 de janeiro de 2010 18:31

Ahhhhh, estou chorando e tremendo inteirinha!!!!!
Mentira, não estou chorando, mas sim, estou tremendo...NÃO QUERO FICAR VELHAAAAA!!! Mas tbm não quero morrer logo, digo logo, pq já tenho uma certa idade e
Ai meu Deus!!!! O que faremos????? Não consigo me imaginar nem com 40 anos, que dirá com 90 e a cara cheia de rugas e despencando pra tudo que é lado!!!
Esse é um dos poucos assuntos que me desespera, me deprime, me preocupa..pq ou vc fica velha, ou vc morre jovem :(

Vanessa disse...
11 de janeiro de 2010 15:16

Sempre achei que não ia ficar velha. Meio que um pressentimento... sei lá.

Eu não tenho medo de envelhecer, não de verdade. Eu implico com a minha idade pq me sinto muito jovem. Minha única avó viva tem 86 anos e é muito jovem.

Tenho paciência com idosos e ajudo as vovós a descerem do ônibus ^^

Achei um tanto triste teu texto, sei lá, talvez com a idade teus pensamentos mudem.

Fabio_mhpb disse...
11 de janeiro de 2010 15:47

Olha, esse é um dos assuntos que mais me deprimem. O cinema pode produzir filmes de fatos reais com o maior drama possível, se eu vejo qualquer "Up" que mostra em tempo rápido a vida de uma pessoa e como ela fica na velhice, eu me emociono mais. O clipe "The Chronicles of Life and Death" também é outro... Enfim, também morro de medo disso. Mas não dá pra não pensar que a outra opção para evitar isso é morrer precocemente. Uma vez eu li um texto sobre o avanço da medicina pra manter a vida... Será que vale mesmo a pena manter a sobrevida da pessoa quando naturalmente ela deveria morrer bem mais cedo? Uma sociedade velha é o pesadelo que eu, infelizmente, por medo da morte, espero enfrentar no meu tão próximo (porque o tempo passa muito rápido) futuro.

Ótimo texto, Érika... reflexivo.

Daniel Rohr disse...
11 de janeiro de 2010 18:47

Olha, pra falar a verdade eu nunca entendi esse medo que tantas pessoas tem da velhice. Medo da morte a gente até entende, principalmente pelos que ficam.

Mas é o ciclo natural das coisas. A outra alternativa é morrer. Submissão.

Considerando que você chegiue na velhice com a 'missão cumprida', é só curtir o sossego pré-morte. A tranquilidade após uma vida ativa. Assim é que deve ser, pelo menos.

Thaliiii* disse...
12 de janeiro de 2010 02:59

aai, eu tô com a Cela! quero ser uma vovó coruja, que nem a minha vó materna foi *-* ter uma casa grande com um quintal gigante onde meus netos vão ficar brincando enquanto a familia come um churrasco. tambem quero envelhecer com uma pessoa ao meu lado, uma pessoa que eu amo. uma das coisas que mais me emociona é ver casal de velhinhos juntinhos, namoricando, de mãozinhas dadas, felizes. acho que é nessa idade que o amor é o mais sincero. *-* mas entendo esse medo, a gente ve sim muita gente velha se fodendo na vida, mas acho que depende das nossas escolhas desde JÁ pra garantir uma "velhice" agradavel...

v. disse...
15 de janeiro de 2010 17:51

Não consigo ficar pensando nessas coisas...

Confesso que tentei logo após ler o texto, mas não consegui pensar em nada concreto e agora me sinto um bon vivant por não conseguir.

JC disse...
18 de janeiro de 2010 09:23

Penso que a morte é o fim da vida. Envelhecer faz parte da vida. Suponho que muitas pessoas não queiram chegar à essa fase. Mas acredito que um número muito maior delas teria escolhido envelhecer, se tivesse oportunidade (conscientes de todas as dores, limitações e ônus que o tempo poderia impor).

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